#EraAgeless: Um novo olhar sobre a “roupa de velha”

Com o visual “brecholento” catapultado por grifes como a Gucci de Alessandro Michele, parecer jovem não é mais uma preocupação das fashionistas.

“Para mim, não existe isso de ‘roupa de velha’… Roupa de velha é uma roupa vestida por uma velha, só isso. E, sabendo que ela pode vestir o que ela quiser, qualquer roupa pode ser roupa de velha”, conclui a estilista Marcela Saravy que, como boa parte da sua geração, já não tem mais medo de peças como tricôs fechados, colares de pérolas, decotes canoa e tons pastel. “Por exemplo, a Dona Helena Schargel (que trabalhou mais de 30 anos na Berlan – empresa têxtil aqui de São Paulo) é um dos meus ícones de estilo. E não é como se eu quisesse me vestir como ela quando estiver na sua idade. Pelo contrário, queria esse guarda-roupa agora!”

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Bruno Dalto, sócio da Martins Tom – marca especialista em jeans e participante da Casa de Criadores – e fundador da Realindo, empresa que produz perfumes artesanais para ambientes, concorda com Marcela. “A atitude fala mais do que a roupa. Se você é uma pessoa que vive o hoje e veste uma roupa do ontem, ninguém vai te julgar como antiquado. Mesmo que seja uma pessoa velha, se ela vive o presente, nota-se.” Os dois jovens são loucos por brechós. O intuito, inclusive, é exatamente o de encontrar peças que se pareçam com o que se entendia por “roupa de velho” em décadas passadas. “Pessoas de outras gerações foram muito estimuladas a consumir sempre o novo e o moderno. Por isso, acabam tendo mais resistência a esse tipo de roupa, mas acho que isso está mudando”, avalia.

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Segundo um estudo da Pew Research Center – um instituto de pesquisas norte-americano – dá para dizer que os millennials são a geração mais pobre desde os Baby Boomers (nascidos entre 1946 e 1964). E isso transforma completamente a maneira como entendemos consumo, ativismo, estética e moda. Se quem está na faixa dos 20 anos de idade atualmente não hesita (e até se orgulha) em comprar suas roupas em um brechó é porque a possibilidade de ter tudo novo a todo momento já não existe mais.

A perspectiva pode parecer pessimista, mas ao mesmo tempo representa a esperança de um novo momento em que a obrigação de sermos exemplares integrantes de um capitalismo frenético está sendo flexibilizada. Os Millennials reconhecem a história das roupas que usam, conhecem o material e dão valor para ela a partir de outros parâmetros. Tudo é levado em conta, menos a sua idade. Aliás, em alguns casos, quanto mais velha, melhor! “Não tenho coragem de me desfazer de algumas camisetas que eu usava na época do colégio porque elas me lembram desse momento da minha vida”, revela Bruno que precisa esconder as peças de sua mãe que está louca para jogar tudo fora. “Minha avó faleceu quando eu era muito pequena. Quando completei 15 anos, algumas roupas dela começaram a servir em mim. Usá-las faz com que eu sinta que carrego uma parte dela comigo”, diz Marcela.

Sou contra o fast-fashion“, declara a estilista Heloísa Faria – também integrante do line-up da Casa de Criadores, conhecida pelo estilo lúdico e poético de suas roupas. “Com o vintage, consigo variar meus looks com um orçamento enxuto, sem entulhar o mundo de mais coisas.” Eis aqui outra grande preocupação millennial: o futuro. “Sustentabilidade e exclusividade são algumas das vantagens de consumir roupa dessa maneira. Estamos dando vida nova a peças paradas, reiniciando um ciclo que já tinha se finalizado.”

Heloisa Faria Look de Heloisa Faria na última edição da Casa de Criadores.

Look de Heloisa Faria na última edição da Casa de Criadores. (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Não à toa, o vintage, inclusive, serve como ponto de partida criativo para Heloísa. “Às vezes, trabalho com upcycling [técnica de construir uma roupa nova a partir de uma peça já existente] guardando uma característica original ou desmancho tudo e começo de novo. Acredito em olhar para trás antes de seguir em frente.” O mesmo lema serve para Bruno que acabou de montar um “pocket-brechó” particular que funciona via Instagram: o @realindo_acervo. “Meu guarda-roupa começou a ficar inchado demais, decidi abrir espaço para novos achados”, justifica.

Além dos motivos macro cósmicos, a César o que é de César: o sucesso de Alessandro Michele na Gucci também ajudou o hype do visual tipo “roupa de velha” a se popularizar. “O que eles fizeram – e que outras marcas também têm feito – foi revelar de onde vinha a inspiração para todas as suas criações”, esclarece Simone Pokropp da Casa Juisi, acervo paulistano de figurino e história da moda. “Para nós, que fornecemos essa informação, sempre esteve evidente de que fonte se bebia.” Quem acompanha o trabalho do estilista que entrou na direção criativa da grife italiana em 2015 sabe que se as “vovózinhas fashionistas” que estão pipocando pelas passarelas mundo afora são dissidentes de seu esforço (quase obsessivo) em revalorizar a roupa do passado.

Seja por causa da preocupação com a sustentabilidade, por curiosidade histórica ou por tempos de economia não tão favorável, o que acontece é que estamos repensando a maneira como nos vestimos. Ao que tudo indica, parecer mais ou menos velho está deixando de ser um fator decisivo na hora de comprar uma peça. Acredite, expandir possibilidades vale a pena. O seu guarda-roupa (e até o planeta) agradecem.

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