Estilistas que levam sua ancestralidade em suas criações

Paria Farzaneh, Manish Arora, Guo Pei e Isaac Silva são prova de que a beleza não-branca merece (e precisa) ser vista.

Um dos avanços mais importantes da moda do século 21 está no poder democratizante da Internet. Atualmente, já não existem pólos incontestáveis de informação. São milhões de vozes tentando conversar ao mesmo tempo e, nessa confusão, começa a surgir a desconstrução do nosso passado higienizado, branco e eurocentrado.

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Assim, novos criativos aparecem mostrando que existe um mundo de belezas, imagens e conceitos muito mais plurais do que aqueles que são retratados na escola durante a vida toda. Vá além do chic parisiense, do Made In Italy, da austeridade alemã e do colorido arquitetônico espanhol, e dê uma chance para outras estéticas que foram invisibilizadas por tanto tempo. Aqui, recuperamos o trabalho de novos e de já consolidados designers que, de alguma forma, retomam a sua ancestralidade nas roupas que fazem — ainda que isso não seja tão bem aceito pelo circuito fechado do mundo da moda.

  • Paria Farzaneh

Nascida na Inglaterra, mas descendente de iranianos, a estilista recém-chegada ao line-up da Semana de Moda Masculina de Londres recupera os uniformes de trabalho e tecidos originais do país que foi berço da sua família em suas criações. Em recente entrevista à Dazed, ela explicou que o ocidente enxerga o Oriente Médio de uma maneira muito estereotipada.

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 (Paria Farzaneh/Divulgação)

“Não é como se eu quisesse fazer um grande argumento político com a minha moda, mas a ideia é tentar normalizar esses corpos”, declarou a jovem que tem o músico norte-americano Frank Ocean entre os seus clientes. Por isso, meninos com traços árabes — que raramente estrelariam os anúncios de marcas de luxo ocidentais — tornam-se estrelas em seus lookbooks e campanhas em situações completamente naturais.

  • Manish Arora

O designer indiano foi o primeiro de seu país — uma das maiores potências asiáticas — a romper a barreira entre a Índia e mercado de moda europeu. Em 2009, inclusive, ele tornou-se membro da Chambre Syndicale, órgão francês que organiza as semanas de moda e auxilia os empreendedores do setor por lá. Já ganhou grandes exposições com seu trabalho e até dirigiu por um tempo uma das marcas mais importantes da história da moda europeia, a Paco Rabanne, em 2012.

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 (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Tudo isso por nunca ter desistido de levar os tradicionais bordados indianos para o resto do mundo por meio de sua leitura moderna, futurista e kitsch. “É o lugar de onde venho e a minha história que faz com que eu me sobressaia no que eu faço. Sem isso, meu trabalho não teria tanto sentido”, disse em entrevista à BBC.

    • Guo Pei

Muita gente conhece a chinesa apenas pelo “vestido-omelete” que Rihanna usou no MET Gala de 2015, no entanto, Guo Pei é muito maior do que isso. Antes da cantora pop usar uma de suas criações, ela já tinha uma carreira consolidada em seu país de origem e esse foi o último empurrão que ela precisava para conseguir se internacionalizar por completo.

Guo-Pei

 (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Tanto que, depois disso, ela se tornou a primeira chinesa a fazer parte do line-up oficial da Semana de Alta-Costura de Paris sem nunca deixar de lado as suas raízes: Guo recupera técnicas de alfaiataria e bordados de diferentes dinastias chinesas e, não à toa, seus vestidos têm preços estratosféricos que giram em torno de 500 mil libras. Aliás, ainda neste ano, ela ganha um documentário sobre essa trajetória dirigido pela neo-zelandesa Pietra Brettkelly chamado Yellow is Forbidden.

  • Isaac Silva

“Em minha marca, eu faço uma pesquisa sobre o Brasil“, diz o estilista que se apresenta há quatro temporadas na Casa de Criadores. “Uso tecidos daqui ou de origem africana como as capulanas senegalesas, com as quais trabalhei em meu último desfile.” Jovem, Isaac já tem em sua lista de clientes nomes como a influencer Magá Moura, a pensadora e arquiteta Stephanie Ribeiro, a rapper Preta Rara e tantas outras figuras célebres do movimento negro.

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 (Thomas Rera/ELLE)

Não à toa, são musas como elas que inspiram suas criações: a cantora Elza Soares, a guerreira Dandara e muitas outras figuras já ganharam homenagens em suas peças. “Daqui a dez anos, a moda brasileira não terá a cara que sempre teve“, aposta ao falar sobre recorte racial.

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