Fashion killers: os rappers conquistaram seu espaço na moda

Se antes eles eram inspiração para designers e labels, hoje dão as cartas do jogo.

Falar da relação da moda com o hip-hop na atualidade sem passar pela trajetória do norte-americano Kanye West é missão impossível. Autointitulado “o maior rapper de todos os tempos”, o nada modesto artista começou sua carreira sendo associado à sua camisa polo cor-de-rosa tipo mauricinho combinada a uma constante corrente dourada no pescoço. O tempo passou e depois de discos extraordinários, como My Beautiful Twist Dark Fantasy (2010), Yeezus (2013) e seu mais recente, The Life of Pablo (2016), Kanye finalmente conquistou o espaço que sempre desejou entre os que vivem no universo das coleções e passarelas.

Leia Mais: Kanye West se inspira em Kylie e vai lançar uma linha de beleza

Tudo começou com uma parceria inusitada com a Louis Vuitton, em 2009. Muito antes de os sneakers estourarem no mundo do luxo, o rapper surpreendeu a todos criando uma coleção de tênis para a etiqueta francesa. Seis anos depois, surgiram as primeiras peças da Yeezy Season – em colaboração com a Adidas –, que está entre as linhas mais desejadas do mercado internacional. Mesmo com preços altos (os calçados chegam a 3 mil reais), os itens dão sold out imediato.

O valor do gueto

Mas nem sempre foi assim. Nos anos 1980, o luxo torcia o nariz para o hip-hop por puro preconceito. Foi preciso que o grupo norte-americano Run DMC estourasse com o hit My Adidas, em 1986, para que a relação começasse a melhorar. O streetwear se tornou um companheiro fiel do gênero e foi crescendo paralelamente a ele. Na década de 1990, o hip-hop percebeu o potencial que tinha para conquistar o mundo e, consequentemente, a moda.

E assim começou a se popularizar a cultura bling (das maxijoias de ouro e brilhantes, principalmente correntes). O intuito por trás do visual era fazer com que os jovens negros da periferia pudessem se enxergar em espaços de poder como o de seus ídolos. Por isso, foi importante ver o nova-iorquino Grand Puba citando Tommy Hilfiger em suas músicas e usando a marca em suas apresentações. O mesmo vale para a aparição do norte-americano Tupac (1971-1996) com sua namorada no desfile de 1996 da Versace (outro must have entre os rappers da época).

Yeezy – Nova York/verão 2017

Yeezy – Nova York/verão 2017 (Fotosite/Agência Fotosite)

Se naquele momento eles queriam mostrar que tinham dinheiro para comprar todas as roupas que desejassem, agora são responsáveis por pautar a moda e, obviamente, sabem tudo sobre ela. Deixaram de ser espectadores para se tornar verdadeiros conoisseurs, ou fashion nerds.

Não à toa, A$AP Rocky – o novo garoto-propaganda da Dior Homme e queridinho do momento – cita mais de 20 marcas em sua música Fashion Killa, de Prada a Ann Demeulemeester. O mesmo vale para a nova faixa, RAF, em que ele pede para que ninguém toque em suas peças “by Raf Simons” (o designer belga, ex-Dior, atualmente é o diretor criativo da Calvin Klein). “Sinto que ele é importante porque foi o único capaz de fazer com que a moda se tornasse uma religião para garotos e garotas. Seus seguidores não se cansam de argumentar a seu favor quando o assunto é decidir qual é o estilista mais importante do mundo”, disse o rapper, nascido no bairro nova-iorquino Harlem, para a revista Time.

Leia Mais: Dez minutos com Rincon Sapiência

O cantor e produtor texano Travis Scott, que participou da campanha em vídeo de estreia de Anthony Vaccarello na Saint Laurent, é outro exemplo da simbiose moda/hip-hop. Além dele, impossível não citar o norte-americano Pharrell Williams: íntimo do estilista Karl Lagerfeld, criador de colaborações-desejo desde Adidas Originals até G-Star, estrela dos red carpets e o primeiro homem a estampar um anúncio de bolsas da Chanel (ao lado Cara Delevingne e Kristen Stewart).

Made in Brazil

Em solo tupiniquim, quem tem feito o maior sucesso é Emicida, para quem a maneira como o hip-hop se relaciona com o mercado de roupas e acessórios também mudou muito. Se por um lado ele sentia admiração pelo trabalho de criação fashion dos músicos Jay-Z, Puff Daddy e Pharell Williams nos Estados Unidos, e do Ice Blue (dos Racionais), no Brasil, por outro tinha aversão ao termo “moda”. “Era algo paradoxal. Muitas vezes, ela é interpretada como algo fútil e isso empobrece o diálogo. Na verdade, percebi que existe muita grandeza nesse tema e várias nuances que são fundamentais para uma sociedade conflituosa como a nossa”, diz à ELLE o rapper, que buscou referências nas iniciativas desses artistas para criar ao lado de seu irmão a sua grife, Lab, presente nas últimas duas edições da São Paulo Fashion Week.

 (Marcelo Soubhia/Agência Fotosite)

Sobre a trajetória de Pharell, o rapper enaltece suas qualidades. “O que ele tem conseguido é algo que tento alcançar na minha caminhada: fazer a música que ama, se vestir como gosta e entender que, dentro da nossa realidade, a proximidade de marcas e arte pode acontecer de uma forma interessante e resultar em produtos bacanas, que as pessoas possam ter.”

Tássia Reis, rapper da nova geração, também é um nome da música nacional totalmente inserido na moda. Ela possui formação profissional na área, já foi modelo e recentemente esteve na passarela da Casa de Criadores em dois desfiles importantes: Isaac Silva (apresentado em parceria com a blogueira Magá Moura) e Brechó Replay (que contou com um manifesto sobre negritude e empoderamento).

Por fim, temos Rincón Sapiência, fashionista de carteirinha, que cita Alexandre Herchcovitch na música que dá título a seu álbum mais recente, Galanga Livre, lançado este ano. Apaixonado pelo intercâmbio que seu estilo musical costuma estabelecer com a moda, ele acredita em um futuro muito promissor para esse relacionamento. “As novas grandes marcas brasileiras sairão do circuito hip-hop”, aposta o artista paulistano com entusiasmo.

Newsletter Conteúdo exclusivo para você
Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s