Hari Nef conta que virou “ativista por acidente”

Musa de Alessandro Michele, ativista por acidente e ícone da nova juventude. Tudo descreve (mas nada define) a modelo e atriz Hari Nef.

Chove a cântaros no Brooklyn, mas Hari Nef nem tem tempo de se preocupar com o mundo que cai do lado de fora do loft de Williamsburg. Ela prefere se concentrar nos sapatos da Gucci que estão organizados ao lado das roupas que vai vestir para a sessão de fotos da ELLE. “As peças que o Alessandro (Michele) cria me lembram de quando eu era criança e ia fazer compras no supermercado com minha mãe. Sempre tinha uma caixa de cereal mais colorida e eu ficava doida. Ele me traz essa sensação de novo: ‘Quero aquele par de sapatos coloridos para mim!’”, diz a modelo e atriz, de 24 anos.

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Hari cresceu na pacata, porém liberal, Newton, no subúrbio de Boston, para onde se mudou ainda criança, vinda da Filadélfia, depois do divórcio dos pais. Entre esse momento e a estreia nas passarelas, em janeiro do ano passado, pelas mãos do amigo Alessandro, ela tem a impressão de ter vivido várias encarnações. Virou atriz, foi parar em uma série de sucesso (Transparent, em que vive a transgênero Gittel) e se tornou a primeira modelo trans a fechar um contrato mundial com uma agência de primeira linha – a IMG, a mesma de Gisele Bündchen.

Mas ela avisa logo de cara: “Conversar sobre gênero é hoje a coisa mais chata do mundo para mim. Há uma fixação das pessoas em relação a esse tópico, e muito mais por medo e fascínio do que de fato para se aprofundar sobre o tema. Imagina quantas vezes tive de responder a questões sobre meu corpo?” Até há pouco tempo, ela achava que precisava falar sobre o assunto por uma espécie obrigação social. “Tinha que esclarecer as pessoas sobre isso e ao mesmo tempo deixar os outros mais confortáveis. Mas me libertei e posso dizer que não, não preciso ser porta-voz de nada.”

Hari Nef

 (Mariana Maltoni/ELLE)

Não se trata de desinteresse. Ela sabe de cor dados como o crescimento de crimes de ódio contra trans nos EUA (300% entre 2014 e 2015) e foi uma das primeiras vozes a reagir às leis sobre o uso de banheiros públicos por pessoas trans (que não levam em conta a percepção de gênero de cada um). Mas lembra que se tornou uma “ativista por acidente”, ao começar a tratar, em entrevistas, do atual momento de “exposição trans” – e as aspas são dela. Nos últimos anos, nomes como a atriz Laverne Cox, de Orange Is the New Black, a ex-atleta olímpica Caitlyn Jenner e a modelo Andreja Pejić ganharam espaço e brilharam profissionalmente. Hari acredita, porém, que esse destaque não é sólido o suficiente. “Até há pouco tempo, éramos solenemente ignoradas. Agora, há dez ou 15 de nós expostas na mídia. É apenas uma presença onde antes havia o vácuo. Merecemos muito mais do que isso”, disse à revista New Yorker, que publicou em novembro um extenso perfil dela.

Leia mais: A trajetória das modelos trans no mundo da moda

No que diz respeito a Hari, essa presença só tende a aumentar. Ela já começou o ano em destaque: estrelou a nova campanha da L’Oréal, como uma das embaixadoras da marca, e surgiu na capa da revista de estilo trans Candy – em que atuou como editora convidada e posou para um editorial ao lado do modelo Andrés Velencoso. As fotos, de pegada romântica e levemente erótica, foram clicadas pelo argentino Sebastian Faena e algumas trazem Hari com os seios à mostra. “Imagens de mulheres trans sendo amadas raramente existem fora da pornografa”, disse em resposta à discussão que o editorial gerou na internet.

Antes disso, em dezembro, ela foi indicada ao prêmio Model of the Year da plataforma Models.com em duas categorias – estreia do ano e estrela das mídias sociais – e recebeu o troféu de segundo lugar em ambas. No mesmo mês, apareceu fazendo uma performance num vídeo dirigido pelo fotógrafo alemão Wolfgang Tillmans para a banda Fragile. Para completar a lista de trabalhos, Hari começa a filmar neste semestre Assassination Nation, primeiro longa em que faz parte do elenco central, ao lado de Suki Waterhouse e da cantora Abra.

Graduada em artes dramáticas pela Universidade Columbia, em Nova York, a atriz tem uma paixão evidente pela moda, ainda que diga não acreditar muito em seu poder transformador. “Moda e identidade andam juntas. Mas, ao mesmo tempo, não dá para discutir questão nenhuma com profundidade se baseando em uma abordagem apenas visual.” A narrativa que ela constrói com sua própria imagem, porém, é inegavelmente poderosa. Hari adora jeans e roupas largas, quase sempre um número maior do que o dela (“Para me esconder nos tecidos”). É fã ardorosa de sapatos altos porque “queria ser um pouquinho mais alta” do que o seu 1,75 m, mas detesta parecer estar “montada” – e não faz questão de afirmar ostensivamente sua feminilidade. “Prefiro meu cabelo mais natural, o make mais leve. Quer saber quem sou eu? Sou aquela que, se pudesse, manteria o estilo de uma adolescente típica dos anos 1990 o tempo todo!”

PATCHWORK ESTÉTICO

Na prática, porém, ela prefere transitar entre estilos. “Você fala em Brasil e eu me imagino imediatamente uma senhora finérrima, ouvindo Mais que Nada, do Jorge Ben Jor, na versão do Sergio Mendes com o Brasil 66, e tomando um drinque no meio da tarde. Bem pastiche de bossa nova”, diz, dando um tapa de conhecimento sobre cultura brasileira na nossa equipe. Hari cultua seu ecletismo sem medo de ser feliz. Lê da biografa de Marylin Manson à mitologia grega. Adora os primórdios da música eletrônica e fica mandando arquivos de áudio para amigos, com sets de DJs e bandas que descobre na internet. “A house music foi fundamental para a construção da minha identidade adulta”, afirma.

Ela não gosta de falar muito sobre como se deu o processo de transformação de uma identidade masculina para a feminina, mas ele aconteceu já em Nova York, quando a futura modelo mesclava as aulas na Columbia com uma presença constante na cena drag e underground da parte sul de Manhattan. “Aqui eu me sinto uma pessoa normal. Sou mais uma na multidão, parte da turma. Não chamo a atenção nas calçadas da cidade. Pensando bem, é o único lugar do mundo em que me sinto assim.”

Seu outro espaço de conforto são as redes sociais. Ela possui mais de 100 mil seguidores em sua conta do Instagram e seu Twitter tem uma atividade frenética. “O que mais importa é meu contato com meninos e meninas e não preciso mais da mídia convencional para isso”, diz. “Esta semana, passei horas em casa, falando com eles pelo Periscope. Eles não ficam me dizendo: ‘Hari, estamos dando um espaço, mas vamos dizer exatamente onde você cabe pra gente’”, diz, fazendo referência ao tratamento que acredita receber da mídia. “Os jovens me perguntam sobre o que vai mudar quando entrarem na universidade e sobre questões em torno de saúde mental. Sobre o paradoxo de viver parte do tempo na tela do celular e do laptop e de conviver em casa, com a família. Falam de aceitação, dúvidas, angústias.” Ela conhece bem esses sentimentos e quer advogar por essa juventude. “É isso. Cansei de ser a ativista. A partir de agora, serei Hari, a advogada”, afirma. E chega de conversa!

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