Jacquemus: “Existe sempre um pouco de minha mãe no que crio.”

Hoje (25.9), o estilista abre a Semana de Moda de Paris com seu desfile e, em exclusiva para ELLE, ele conta sobre o início de sua carreira.

Aos 27 anos, Simon Porte Jacquemus é o mais jovem estilista a alcançar o que os franceses chamam de “cartonner”, uma expressão usada para definir sucesso e popularidade. Com sua etiqueta homônima, fundada há sete anos, o designer, nascido em Salon-de-Provence, a 50 km de Marselha, na Provence, está entre os nomes mais importantes da moda atual. Foi considerado “a esperança da moda francesa” pelo diretor executivo da Comme des Garçons, Adrian Jofe, entre outros elogios vindos de importantes editores, jornalistas e players da indústria.

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“Sempre soube que iria fazer algo que desse certo. Não é porque venho de um lugar simples que a moda era impossível. Ao contrário, fui criado com toda a liberdade para sonhar. No fim das contas, a moda é um trabalho como qualquer outro”, conta em entrevista exclusiva à ELLE, que fotografou em Paris a coleção de inverno da grife. Ao mesmo tempo que confia no que faz e tem orgulho do sucesso de suas criações, Simon mantém a despretensão e a simplicidade em sua vida. Aqui você confere mais do universo do estilista.

 (Fe Pinheiro/ELLE)

Como foi o seu começo na moda?

Vim para Paris estudar moda com 18 anos. Depois de um mês, perdi minha mãe em um acidente de carro e larguei tudo. Mas senti que precisava falar dela de algum jeito e até hoje é assim. Existe sempre um pouco de minha mãe no que crio.

Qual é a primeira e última lembrança de estilo que você tem dela?

A primeira são os grandes vestidos de vovó, com bordados no estilo 1900. No verão passado, fiz modelos assim, enormes, longos, brancos, que fecharam o desfile. Essa é uma grande lembrança. Ela pegava roupas da minha avó, cortava e fazia algo moderno. E a última é ela vestida de rosa-pálido da cabeça aos pés.

“Venho do Mediterrâneo. Lá as pessoas se falam, se tocam, se divertem. A Jacquemus é solar. Tem uma luz nela.”

Qual a diferença entre a mulher francesa no geral e a parisiense, que você quer transmitir nas criações da Jacquemus?

É difícil explicar, mas, para começar, existe a mentalidade. A mulher parisiense tem algo de muito pretensioso e falso. Já a mulher francesa é mais sincera, simples e sorridente. Venho do Mediterrâneo. Lá as pessoas se falam, se tocam, se divertem. A Jacquemus é solar. Tem uma luz nela.

Na sua coleção de verão 2017, a inspiração é bem latina, não?

Sim. É muito latina, espanhola, tem referência às touradas, a Picasso. Mas as silhuetas também são bem parisienses.

 (Fe Pinheiro/ELLE)

Como um criador autodidata, vindo do sul da França e com uma cultura completamente diferente da capital, conseguiu entrar no meio da moda parisiense?

Nada me parecia impossível, já que eu não conhecia regras. Não tinha dinheiro nem contatos. Estava apenas na cidade, com muita vontade de que desse certo. Quando fiz minha primeira coleção, pensei: vou colocar no meu site, postar no Facebook, e as pessoas vão vê-la. Não me coloquei nenhuma exigência e nenhuma imposição de que teria que vender em uma grande butique. Simplesmente pensei que venderia tudo sozinho.

“Minhas coleções são sempre pensadas como um filme francês.”

Não havia nenhuma estratégia?

Sei que pode parecer bizarro, mas eu sabia que isso tudo ia acontecer. Desde que tinha 7, 8 anos, todos da minha família sabiam que não era impossível que um dia eu virasse um criador de moda. Não posso dizer que tudo é uma surpresa porque eu sabia que tinha a força para fazer o que faço. A única coisa que não imaginava é que me tornaria um estilista por ter perdido minha mãe. Quando cheguei a Paris, pensava estudar moda e depois estagiar em uma grande maison. Poucos dias depois do enterro, transformei minha dor em força, em vez de fraqueza, e comecei a criar. É por isso que consegui tocar as pessoas. Mesmo que as minhas primeiras coleções não tivessem uma linha precisa, havia a emoção.

Como funciona o seu processo criativo?

Cada coleção deve contar a história de uma mulher francesa. Todas começam com A ou O: é uma alusão ao filme de Godard O Desprezo, que fala “O homem”, “A mulher”. Sempre fui obcecado por essa história. É tão francesa. Les Santons de Provence (Os Bibelôs da Provence), L’Amour d’un Gitan (O Amor de um Cigano). Minhas coleções são sempre pensadas como um filme francês.

 (Fe Pinheiro/ELLE)

Hoje há alguma diferença na sua criação em relação ao início?

Estou cada vez mais preciso em relação às minhas peças e à mulher Jacquemus. Ela é mais feminina e livre. Tem algo mais sexual. Ela cresce comigo.

É verdade que você adora o Brasil?

Estive no Rio, em Ilha Grande, e quero muito voltar. Amo música brasileira. Desde os meus 18 anos, adoro “água de beber, água de beber” (ele canta). Gosto de todas as versões, mas a de Tom Jobim é minha preferida. Gosto da bossa nova como um todo. Escuto muito no estúdio e também passo bastante tempo olhando imagens de casas brasileiras. Vejo um senso de decoração e estética que me interessam. Eu sonho em voltar ao Brasil.

Você organizou recentemente um livro dedicado a Marselha. Pode contar um pouco sobre ele?

Marseille, Je T’Aime é uma homenagem à cidade. Por mais que tenha desenhos de moda, é uma obra mais artística. Como sou de lá, resolvi chamar vários artistas para fazer suas interpretações.

Existe alguma vontade de lançar uma linha masculina? E como definiria seu estilo?

Não penso em criar para homens. Para mim, compro jaquetas militares, tênis Converse e meias engraçadas. Gosto de vestir coisas simples. Minha peça preferida vem do Brasil, uma regata esportiva com dois pedaços de tecido ligados por um elástico. Inclusive, se você puder me mandar uma, j’adore!

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