Maria Borges usa sua carreira para ampliar noções de beleza

Capa da edição de junho da ELLE Brasil, a modelo quer abrir portas para outras meninas negras.

“Don’t touch my hair / Don’t touch my soul / Don’t touch my crown”, canta Solange Knowles em seu disco A Seat at the Table. De fato, os diversos penteados que a irmã mais nova de Beyoncé ostenta em shows e tapetes vermelhos são inspiradores e, mais do que isso, uma resposta lindamente dada aos que ainda acreditam que um cabelo bonito e saudável está obrigatoriamente associado ao liso. Enxergar a beleza que há nos fios enrolados e crespos em uma sociedade que cria padrões por todos os lados é um ato de resistência e arrojo, mas que angariou o apoio de grandes mulheres destemidas ao longo da história. Encarando as suas madeixas como um símbolo de poder, elas as transformaram em verdadeiras coroas.

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E se na década de 1960, o movimento Black Is Beautiful incentivava a valorização dos traços naturais de pessoas negras, em 2017 meninas passaram a usar suas redes sociais para fazer exatamente o mesmo, e mostrar que o cabelo pode ser um ingrediente importante no processo de aceitação e construção de autoestima. Longe de uma visão impositiva, jovens como Maria Borges entram no coro de Solange para mostrar que a beleza vem em diferentes formas — e que o corte curtinho é só uma de suas infinitas possibilidades. “Ser modelo é muito mais do que fazer dinheiro, é ter a possibilidade de inspirar outras meninas“, diz a angolana em entrevista exclusiva à ELLE Brasil. O cabelo que Maria exibe no momento, aliás, foi um divisor de águas em sua carreira, e uma prova de coragem dentro do resistente mundo da moda.

Há cerca de dois anos, ela virou a primeira modelo a desfilar no Victoria’s Secret Fashion Show sem apliques ou peruca, uma ideia que partiu dela, mas que logo foi acatada pela produção do evento. “Na vida, se você não tentar, você nunca vai saber. Eu agradeço a Victoria’s Secret porque, logo que eu pedi, eles aceitaram, e no dia do desfile eu estava lá, a única sem extensões. Até Adriana Lima veio me parabenizar“, relembra.

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No desfile da Victoria’s Secret em 2015 e em 2014. (Getty Images/Getty Images)

Com poucas referências de modelos negras quando estava crescendo, Maria costumava achar que sua única opção era ser parecida com Naomi Campbell. Ironicamente, eram exatamentes os fios lisos que faziam com que algumas grandes marcas não a escolhessem para os castings no começo de sua carreira. Apesar dos clientes comerciais estarem satisfeitos, nomes como Riccardo Tisci acreditavam que seus traços marcantes ficariam mais evidentes com os fios curtos e naturais. Ela resolveu seguir o conselho e, em 2015, se sentiu segura, raspou a cabeça e foi exclusiva da Givenchy, fazendo com que players da indústria se perguntassem quem era “a nova garota”.

“Muitas mulheres usam o cabelo liso como identidade. E eu sinto que tenho que mostrar a elas que não precisa ser assim. Esse cabelo curtinho está sendo importante para provar que elas também são bonitas. No desfile da Victoria’s Secret do ano passado, por exemplo, eles confirmaram mais meninas com o cabelo igual ao meu, e isso é um avanço”, aponta.

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A estreia do cabelo curto na passarela da Givenchy, em março de 2015. (Pascal Le Segretain/Getty Images)

Quebrar barreiras parece ter virado algo que Maria faz com naturalidade. Atualmente a maior modelo de seu país, ela saiu de Luanda porque queria ajudar a família, principalmente a irmã mais velha, que teve um papel crucial na sua criação desde a morte da mãe, quando ela tinha 11 anos. Muito mais do que conseguir pagar as contas, ela vem alcançando grandes feitos que extrapolam as suas conquistas pessoais, e servem como referência para outras meninas. Assinou um contrato poderoso com a L’Oréal e, em maio, foi uma das estrelas da ELLE USA, se tornando a primeira modelo africana a alcançar o feito neste século — a sul-sudanesa Alek Wek, outro de seus ídolos, estampou a publicação há 20 anos, e ela explica o quanto isso é importante: “A Alek me marcou muito, ela abriu as portas para todas nós africanas. Eu sou grata por isso, e espero fazer o mesmo. Abrir caminhos”.

BRASIL E ANGOLA

Em junho, foi a vez de estrear em uma revista brasileira. Usando a bandana branca símbolo do movimento #TiedTogether, ela e Hailey Baldwin foram capa da ELLE Brasil. Um momento especialmente marcante, já que Maria é apaixonada pelo país. “Eu cresci vendo todas as novelas, amo as atrizes, principalmente a Taís Araújo, que ainda não pude conhecer, mas adoraria”, revela. “Brasil e Angola são países irmãos, e a cultura brasileira faz parte de mim desde pequena. Eu brinco que sou brasileira por dentro, então você pode imaginar que quando me convidaram para o Carnaval eu quase não aguentei de alegria”. Como uma das musas da Mocidade Independente de Padre Miguel, Maria absorveu tudo o que pode das rainhas e brilhou na avenida. “Por ser africana, eu acho que tenho gingado, que sambo bem, mas quando cheguei no Rio de Janeiro as brasileiras sambaram na minha cara”, diz rindo.

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Em editorial da edição de junho 2017 da ELLE Brasil. (Mariana Maltoni/ELLE)

O jeito alegre revela uma garota de 24 anos com sede de aprendizado e aberta a compartilhar todas as experiências novas que está tendo. São 430 mil seguidores nas redes sociais, e ela diz que quer mais: mais interação, trocas e crescimento. “Sou muito grata por tudo o que aconteceu até agora. Desfilei para a Chanel no fim do ano passado, que era um dos meus grandes sonhos, e acho que esse está sendo meu ano de sorte”, comemora. Além de admirar Gisele Bündchen pela carreira consolidada e pela vida pessoal low-profile, Maria também sonha em ir além da moda, e um dia criar a sua própria fundação, que ajudará crianças órfãs ao redor do mundo por meio da educação.

Conversar com Maria Borges é ouvir a palavra agradecimento constantemente. Acompanhar sua trajetória, porém, é perceber que na verdade o mundo é que ganha quando meninas se empoderam, e usam sua influência para abrir caminhos e mostrar possibilidades — de cabelos, de carreiras, de sonhos.

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