O afrofuturismo vai contra o preconceito de que imagens de negritude não podem ser sofisticadas

Em 1967, a atriz Nichelle Nichols deixou muita gente contrariada ao interpretar a tenente Uhura, chefe de comunicações da Enterprise, na série Star Trek. Ela mesma não estava lá muito animada e planejava abandonar o posto após a primeira temporada. Porém um encontro importante mudou sua perspectiva. Naquele ano, ela conheceu Martin Luther King, ícone da luta contra o racismo e fã da série. Nichelle diz que depois da conversa se deu conta da importância de seu papel: ela era uma mulher negra, representando as mulheres negras em um futuro intergaláctico. E em posição de comando. Não só permaneceu na série como também seu personagem se tornou fixo.

A ausência ou a presença tímida e secundária de negros em ficções futuristas diz muito sobre o passado e sobre o presente. A vontade de levar os negros ao mundo espacial e de recontar seu passado (usar metáforas de ETs e abduções para falar da exclusão social real, por exemplo) por uma ótica fantástica está articulada em uma cena cultural desde os anos 1960, como no jazz interestelar de Sun Ra e seus discos Nubians of Plutonia e Space Is the Place, assim como na música de George Clinton. Logo depois, viriam Grace Jones e tantos outros (Tricky nos anos 1990, na crista da onda eletrônica, é um bom exemplo).

O termo afrofuturismo foi cunhado nos anos 1990 pelo teórico Mark Dery, organizando os trabalhos de artistas que abordavam questões da militância negra com o filtro da ficção científica e da tecnologia.

Não só na música e nas artes plásticas, na política e na crítica cultural.  O tema, que passa por um a nova onda em todo o mundo, com nomes que vão da cantora Janelle Monáe a grifes como a Project Tribe, ganhou uma mostra especial em São Paulo no final do ano passado.

Mas o que isso tem a ver com a moda? Tudo. Para começar, você precisa saber disso se quiser entender Willow Smith na Chanel, e os últimos desfiles de Kanye West para a Yeezy, parceria com a Adidas Originals. Tem tudo a ver também com Rihanna vestindo sua capa prateada para a campanha verão 2016 da Fenty x Puma. E com a nova geração de modelos negras. Em retrospecto, o afrofuturismo pode ajudar a entender melhor o desfile de Rick Owens com as dançarinas negras ou a ascensão de Shayne Oliver e seu design street-apocalíptico para a Hood by Air, entre outras coisas.

Tenho sérias restrições ao discurso de West e suas declarações misóginas – acredito que ele precise passar por um choque de feminismo. Porém suas criações têm seu valor simbólico. Para a Yeezy, fez três gerações de looks que parecem figurinos criados talvez para um futuro Mad Max (Estrada da Fúria, aliás, quase não tem negros, enquanto A Cúpula do Trovão tinha a diva absoluta Tina Turner). No mais recente, apresentado no mês passado, o casting era 100% negro.

Muito se fala sobre negros e racismo, como estou fazendo aqui, mas o que está mudando é que agora os negros também são os narradores de si mesmos. Kanye, Beyoncé, Rihanna, Pharrell, (e sua parceria best-seller com a Adidas), Jay-Z, Kendrick Lamar e tantos outros artistas negros estão dando as cartas no mercado musical. Todos eles são reconhecidos como ícones de estilo e de comportamento, são ouvidos, conquistaram isso.

Os batons metálicos de cores inusitadas, que estão em alta, são tipicamente afrofuturistas. A estética de meninas brasileiras como a blogueira Magá Moura, a bailarina e ativista Isis Carolina Vergílio, as cantoras Karol Conka e Tássia Reis têm elementos afrofuturistas. As tranças coloridas misturadas com o look punk, metalizados, elementos supernovos e referências tribais. As meninas negras revisitam os acervos de sua história e lançam tendências. É justo que levem , sim, os créditos por isso.

Por aqui, essas garotas estão sendo incluídas em algo chamado de geração Tombamento. Tombando a ideia de que imagens de negritude não podem ser sofisticadas. Como diz Beyoncé, as mulheres negras estão “em formação”, estão se organizando. Porque o presente e o futuro são delas também. E a moda só tem a ganhar.

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