O desfile da Gucci fala mais sobre o Brasil do que você imagina

Em tempos de descarada homofobia institucionalizada, um desfile que reverencia ícones gays como Bob Mackie e Elton John serve como respiro e resistência.

É provável que Alessandro Michele, estilista da Gucci, não estava pensando no nosso país quando começou a desenhar os primeiros croquis do verão 2018 da marca que dirige. No entanto, ao falar sobre resistência, é impossível não associar a apresentação que aconteceu hoje, em Milão, – ainda que indiretamente – com a mobilização da população LGBT no Brasil depois que a Justiça anunciou que a homossexualidade pode ser tratada como uma doença nos consultórios de psicologia ao redor do país.

A interpretação que o designer deu ao tema, é claro, não só conversa com o seu universo de exageros e conexões inusitadas entre referências como também reverencia ícones da cultura gay. O costureiro genial Bob Mackie, responsável pelos figurinos mais icônicos de atrizes/cantoras como Cher e a drag queen RuPaul, é um dos homenageados, ao passo que o cantor e compositor Elton John até assina algumas das peças desfiladas.

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 (Gucci/Divulgação)

Na trilha, a batida do tecno acelerava as modelos que passavam por um cenário que misturava elementos tirados de diferentes culturas da Antiguidade: Egito e Império Romano, principalmente. O clima é de festa cool, underground, da noite nova-iorquina em seus tempos áureos quando o fervo LGBT conquistou o seu espaço nas madrugadas regadas a glitter, sexo e divas disco. Um espaço em que todo mundo podia ser quem quisesse, um refúgio para quem tinha que se esconder quando exposto à luz do sol.

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 (Gucci/Divulgação)

Para evocar esse universo e ainda assim continuar escrevendo a sua história na Gucci, Alessandro dá um passo à frente no quesito bagunça & mistureba (no balaio do criativo entra Japão, roupa de academia, pijamismo e outras loucurinhas que fizeram sua fama) e freia um pouco quando se fala de volumes e vestidos de gala. Estes últimos, quando raramente apareceram na passarela da grife, funcionam mais como um look exagerado para a boate do que um red carpet polido para uma celebridade hollywoodiana.

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 (Gucci/Divulgação)

Na contramão da onda noventista que assola a moda desde a entrada da francesa Vetements para o radar fashionista, a etiqueta italiana mirou nos anos 1980 e se divertiu entre os brilhos, os acetinados, os peludos e os estampados da década que deram nova roupagem à sua alfaiataria, principalmente. A Gucci de Alessandro Michele aprendeu a lição da temporada passada: ao invés de simplesmente se apropriar de criativos periféricos como Dapper Dan, a marca deu os créditos e colaborou com os originais de modo a ampliar o discurso deles, e não de se sobrepor a quem escreveu a história com as próprias mãos. Um lembrete esperto e necessário de que o lacre também é luta.

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