O desfile mais sensível do SPFW foi de Ronaldo Fraga

Conversamos com o estilista sobre a coleção feita em conjunto com artesãs afetadas pela tragédia de Mariana.

Ronaldo Fraga monta uma coleção como quem escreve um poema. No backstage, antes da apresentação, explica seu verão para o 45º São Paulo Fashion Week, da seguinte maneira: “ela brotou de um encontro com bordadeiras de Barra Longa, cidade mineira afetada pela tragédia de Mariana”.

No convite, igual sensibilidade já adianta o tema. Mulheres desenhadas por ele formam raízes de plantas que, um dia, foram típicas da região. Plantas engolidas pela lama desde que a barragem do Fundão, da empresa de mineração Samarco, rompeu em 2015.

Leia mais: Perguntamos no SPFW: para que serve um desfile hoje?

O crime ambiental deixou 19 mortos, dezenas de espécies de animais dizimados e 34 milhões de metros cúbicos de rejeito de minério espalhados por cidades no entorno, contaminando inclusive o Rio Doce, que corta os estados de Espírito Santo e Minas Gerais.

Ronaldo Fraga

 (Ze Takahashi/Agência Fotosite)

“As Mudas”, nome dúbio escolhido para a coleção, se refere ao silenciamento desta população e ao movimento dela agora na tentativa de se reconstruir. Há alguns meses, Ronaldo conheceu de perto estas sementes que, por muito tempo, estiveram caladas. Foi convidado a acompanhar a rotina de artesãs da cidade para um trabalho de capacitação.

“Quando cheguei lá, vi o potencial criativo de todas essas mulheres e percebi como a resistência delas parte principalmente de suas produções”, comenta. “Vi também um lugar com muita história e memória soterrada”. Teve a ideia, então, de praticar um exercício com elas: bordar os jardins que existiram e sumiram por ali.

Nasceu uma coleção feita de linho, com modelagem que parte principalmente da imagem de uma camisola de batismo. “É uma peça muito comum em Minas, que passa por gerações”, conta Ronaldo. “Uma das mais antigas do grupo me trouxe uma de seu primo para usarmos como referência. Ela disse que a da família dela era bem mais bonita, mas a do primo era a única que tinha sobrado, porque a sua, a lama carregou”.

Na passarela, o barro toma toda a extensão, sobe pelas paredes e avança na cabeça das modelos – inclusive da jornalista e atriz Marília Gabriela, que abre o desfile com a lembrança da dor. “Toca Mortal Loucura”, de Caetano Veloso, com letra sobre “a oração que desaterra a terra”, e segue para “Os Povos”, de Milton Nascimento, com a história de uma “aldeia morta” e que, uma hora, essa gente precisa “aprender a viver só”.

Ronaldo Fraga

 (Ze Takahashi/Agência Fotosite)

O primeiro vestido traz a onda e, com ela, sufocantes repetições de peças manchadas de marrom. O respiro vem mais tarde com o verde, assumindo o lugar que sempre foi seu. Vem uma imagem de esperança que, por enquanto, ainda é construída com lembrança. Elas recordam em bordados as plantas como a Comigo Ninguém Pode, a Espada de São Jorge, a Maria sem Vergonha e o Coração Magoado.

“A lama levou consigo a vida e a memória das pessoas”, reflete Ronaldo. “O Seu Antônio, de Barra Longa, ficou oito meses cavando a terra, para achar a foto de suas filhas gêmeas. Era a única coisa que ele tinha das meninas que morreram com o desastre. Ele falou que podia perder a casa, perder tudo, mas que não podia perder a foto, não”. Parte daí uma outra série de vestidos, com fotografias da própria família de Ronaldo. Uma reflexão sobre o passado, numa tentativa de reviver as coisas.

Ronaldo Fraga Mariana SPFWN45

 (Ze Takahashi/Agência Fotosite)

Quando as plantas voltam, elas não são mais aplicações e, sim, buracos, vazados em vestidos que revelam a mulher nua por baixo. Uma vulnerabilidade de quem está ali sem nada. É uma aproximação sensível sobre o assunto que parte do indivíduo e não do geral. Muito diferente de como as reportagens transmitiram a tragédia na época – de longe, como bem lembrou a nossa editora sênior de moda, Vivian Whiteman, em sua crítica.

Ronaldo Fraga Mariana SPFWN45

 (Ze Takahashi/Agência Fotosite)

A mulher na passarela, no entanto, brota apesar das condições duras. Saem de seus cabelos os frutos da mamona e estão enroladas em seus pescoços uma folhagem real. A estrofe final deste poema é escura, em cor de luto. Oito modelos, todos em preto, lembram que ainda existe o peso, a dor e as respostas não atendidas.

Ronaldo Fraga Mariana SPFWN45

 (Ze Takahashi/Agência Fotosite)

Hoje, exames constatam intoxicação por metais pesados na área, mas ainda não se chegou a um consenso entre a Justiça Federal, o Ministério Público Federal e a empresa Samarco, controlada pela Vale e BHP Billiton. Uma decisão sobre as responsabilidades já foi adiada 4 vezes.

Para além da roupa, sempre muito bem-feita, gerando desejo e contando história, Ronaldo Fraga ainda se mostra como um dos poucos remanescentes brasileiros que lembram a importância de se fazer um forte desfile. A oportunidade que um espaço e um momento como este fornecem e a sua potencialidade.

“Sabe a importância do palco para o teatro?”, ele diz. “É a mesma importância do desfile para a moda. A moda é um documento eficiente do mundo”, finaliza. E como é bonito ver este documento do mundo que Ronaldo Fraga faz.

Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s