O meme da vez também fala de uma revolução na moda

Pensamentos sobre o novo momento do luxo a partir do vídeo "Quanto Custa o Outfit?".

Se você se interessa minimamente por moda, os algoritmos de suas redes sociais devem ter levado o meme do dia até a sua timeline: já assistiu ao vídeo “Quanto custa o Outfit?”.

Nele — uma releitura do vídeo “How much is your outfit“, do canal The Unknown Vlogs –, uma série de garotas e garotos brasileiros contam quanto pagaram nas peças que estão usando para frequentar o SOLD OUT, evento que acontece em São Paulo para revenda e troca de itens de streetwear. Quem está mais familiarizado com o assunto sabe o valor de algum modelo Yeezy de Kanye West para a Adidas ou de um acessório da Supreme. Eles são caríssimos, difíceis de conseguir e existe uma legião de fãs — tais como os protagonistas do vídeo — que acreditam que essas peças realmente valem o quanto pesam.

No entanto, ver todo mundo declarando os preços aparentemente absurdos de seus looks, de fato, é no mínimo curioso. Não há vergonha nenhuma por parte deles, pura ostentação. Porém, trata-se de uma ostentação completamente diferente da que estamos acostumados. Não são joias opulentas ou sapatos de couro italiano. Há, sim, uma ou outra it-bag europeia, mas o orgulho mesmo está no cinto amarelo da Off-White de Virgil Abloh, nos sneakers feitos em colaboração entre grandes designers (ou grandes grifes) e etiquetas de sportswear e Supreme, Supreme, Supreme até dizer chega. 

A princípio, tudo parece uma maluquice sem fundamento — como toda e qualquer ideia de se vangloriar por poder gastar mais dinheiro do que a média da população –, mas essa maluquice, especificamente, nos convida a uma série de questionamentos. Para começo de conversa: será que o luxo realmente ganhou outra cara?

Até outro dia, era o vestido de alta-costura, o bordado intrincado que demorou dias para ser finalizado e os tecidos nobres que causavam esse frisson todo. Hoje, uma camiseta – de algodão, quase banal – é o que realmente agrega algum status. Por que isso está acontecendo? Dá para falar da Balenciaga de Demna Gvasalia – apesar de sabermos que ele não resume a resposta a essa pergunta. O estilista, nascido na Geórgia soviética e que fundou a Vetements, vem subvertendo esses códigos desde que entrou na Semana de Moda de Paris com sua marca, e intensificou seu argumento ao assumir a direção criativa da maison criada em 1919 pelo espanhol conhecido por ser “o mestre dos mestres” da couture. 

Nas marcas conduzidas por Gvasalia, um moletom vale ouro, um tênis – propositalmente “feio” – é um de seus maiores hits e uma camiseta promocional na DHL – empresa de correio expresso internacional – vira o item mais requisitado de uma temporada. A gente pode achar as propostas todas sem sentido, sem dúvida, mas não dá para negar os fatos: há quem compre. E o trunfo do designer está exatamente em inserir a estética da rua no universo do luxo tradicional que, há muito tempo, torce o nariz para imagens como essas. Mesmo que elas signifiquem mais dinheiro no caixa.

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 (Balenciaga/Divulgação)

Acontece que o caminho do streetwear até esse momento de glória não é recente e nem simples de se entender. Até porque trata-se da roupa que, por muito tempo, era entendida como o exato oposto do luxo: a roupa largada, de quem não “se arruma” e, acima de tudo, de quem não tem dinheiro. A pós-modernidade dá dessas: de repente, a roupa de quem não tem dinheiro vira a roupa de quem tem muito dinheiro, e a gente fica aqui sem entender nada. Mas vale lembrar da trajetória do rap e do hip-hop que, aos poucos, foram angariando o seu espaço, tão criativos e inteligentes que se fizeram impossíveis de ignorar, e levaram o seu saber visual para o mundo da “alta moda”.

Só que quando essa “alta moda” decide arregaçar as mangas, descer do salto e fazer streetwear, os preços continuam altíssimos e quem pode desembolsar valores como esses, em geral, não têm tanta ligação com a origem desse movimento cultural que é, obviamente, muito legítimo. Por hora, o que dá para fazer é imaginar um futuro possível baseado nos acontecimentos recentes. Por exemplo, Virgil Abloh – autor do cinto hit entre o pessoal do vídeo-meme do dia – é o novo diretor criativo da linha masculina da Louis Vuitton. Portais como o Hypebeast e o High Snobiety – especialistas no assunto que soltam com exclusividade os drops dos tênis mais desejados – estão entre os mais acessados do mundo. Gucci, para muita gente, não é a etiqueta do Alessandro Michele, mas sim uma marca quase esportiva com detalhes extremamente elaborados. Não à toa, quem faz a moda tradicional já está se incomodando – o norte-americano Ralph Rucci até escreveu uma carta em repúdio ao trabalho “desrespeitoso” de Demna Gvasalia recentemente.

louis-vuitton-supreme-backpack-mochila A parceria histórica com a Supreme foi idealizada pelo designer Kim Jones.

A parceria histórica com a Supreme foi idealizada pelo designer Kim Jones. (Louis Vuitton/Divulgação)

A lista é grande, mas ela só existe para dizer que a moda está passando por uma transformação radical e, se quisermos entender o que está acontecendo, até dá para rir e se inconformar com o vídeo da vez, só não dá para ignorar que, para além de um meme, ele é também um indicativo de que o jogo – da maneira como conhecíamos – virou.

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  1. Acredito mais que streetwear tem uma tendencia goumertizante. quem tem mais pode mais. as severas criticas acerca do material gasto por esses consumidores é a contrapartida da impossibilidade de se obter esses mesmos objetos. o fetichismo da mercadoria faz sentido ao ponto de os criticos usarem qualquer elementos alheios ao tema para justificar sua posicao reacionaria. assim foi com os carros, com as motos, e com os acessorios de ouro e prata. streetwear é a bola da vez.

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