O que vai acontecer com o uso de pele na moda?

Depois de nomes importantes do cenário fashion abdicarem do uso de pele verdadeira, analisamos o destino que aguarda o material.

A discussão ficou mais forte com a Gucci, em 2017. Marco Bizzarri, chefe-executivo da marca, anunciou durante a quarta edição do evento Kering Talk que a marca não usaria mais pele, a partir de sua coleção de verão 2018. Antes disso, o Net-a-Portere-commerce de moda mais importante do mundo, já havia informado, em junho de 2017, que não venderia peças produzidas com peles. As declarações trouxeram um impacto positivo tanto para a identidade da etiqueta italiana quanto para a do e-commerce e levantaram novamente o debate sobre o uso da pele na indústria da moda, tópico relembrado de tempos em tempos toda vez que um grande nome se pronuncia sobre o assunto ou um protesto acontece.

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Meses após a divulgação das notícias, as marcas Michael Kors, Tom Ford e Jimmy Choo também apareceram com a promessa de abandonar a pele em suas roupas e acessórios até 2018. Além deles, Donatella Versace se manifestou sobre o assunto e disse que não quer matar animais para fazer roupas na Versace. E se há muito não se discutia o impacto do material no cenário, a chama se reacendeu. Afinal, a moda está perto de abandonar a pele?

Giorgio Armani deixou de usar pele verdadeira em 2016 – Foto do desfile de inverno 2018 da marca

Giorgio Armani deixou de usar pele verdadeira em 2016 – Foto do desfile de inverno 2018 da marca (Fotosite/Agência Fotosite)

Segundo Tracy Reiman, vice-presidente executiva do PETA, os consumidores são cada vez mais conscientes sobre o uso real da pele e os estilistas e as marcas também respondem à demanda. Para ela, hoje é fácil encontrar produtos cruelty-free com qualidade e beleza. “Os grandes nomes estão eliminando, um por um, a pele de suas coleções e o PETA realmente espera que ela se torne apenas um vestígio do passado”, disse em entrevista à ELLE.

Mas se engana quem pensa que essa luta é recente. Tracy relembra que o trabalho de ativistas acontece há décadas. E não é preciso ir longe. Basta recapitular breves (e não tão velhos) momentos da cultura fashion para se deparar com a glamourização e o fetichismo a partir de peças de pele. Pense em Miranda Priestly vestindo um casaco peludo no filme “O Diabo veste Prada”, em 2006, ou até mesmo relembre os looks de street style de Kate Moss.

A lista de labels que ainda usam, além do couro, a pele de animais para casacos e roupas de inverno é grande (Burberry, Fendi, Chanel, Versace, Louis Vuitton, Dior e Hermés só para começar). Na contramão, há nomes importantes e significativos, e Tracy destaca alguns. “Marcas como J.Crew, Tommy Hilfiger, Calvin Klein, Ralph Lauren e, mais recentemente, Michael Kors e Gucci concordaram em não usar mais pele por causa das campanhas de incentivo do PETA”, aponta.

Não é de se estranhar que a maioria dessas etiquetas vendam a sustentabilidade como algo alinhado a suas ideias. Um exemplo é a proposta de Stella McCartney, dona de uma das marca que mais se posiciona sobre sua cadeia de produção e com o uso de seus materiais. Em 2017, por exemplo, a estilista (cuja marca faz parte do grupo Kering) fotografou uma campanha inteira em um aterro sanitário, alertando o público sobre os impactos do consumo desenfreado.

Outro nome que também vem ganhando relevância e espaço no mercado é a britânica Shrimps. Fundada em 2013 pela estilista Hannah Weiland, a marca de pele e couro falsos nasceu após uma necessidade de sua criadora que não encontrava peles falsas de qualidade. Em entrevista, Hannah conta: “Eu nunca usei peles verdadeiras e quando encontrei peles falsas de luxo, senti que precisava trabalhar com esse material e compartilhá-lo com o mundo. É versátil, animal friendly e glamouroso”.

Shrimps casacos de pele falsa Casaco de pele falsa da Shrimps

Casaco de pele falsa da Shrimps (Shrimps/Divulgação)

Além de bonitas, as peças da label imitam perfeitamente a real. Para a designer, isso faz com que o argumento do uso de pele venha se tornando cada vez mais obsoleto. “A pele verdadeira fez parte do cenário fashion por muito tempo e sempre agregou status e glamour à pessoa que usava. Atualmente, a falsa vem se tornando tão boa e fashion quanto. A desculpa para seu uso está insustentável”.

Embora a preocupação com o uso de pele tenha aumentado, alguns nomes do meio fashion continuam criando desculpas para sua utilização. É o caso da estilista dinamarquesa Astrid Andersen que argumentou em entrevista recente ao WWD sobre a implementação de peles ser “zero waste”. À primeira vista, a justificativa pode até parecer razoável, mas a quantidade de químicos utilizada no processo de fabricação desmascara o argumento. “Os químicos aplicados na carne para impedi-la de apodrecer são altamente tóxicos, cancerígenos e fazendas de criação emitem amônia no ar e poluentes nos rios. Além disso, a maioria das peles é produzida na China, onde as regulamentações são extremamente limitadas e muitas vezes ignoradas”, comenta Tracy.

Se lá em 1986 o Greenpeace já fazia campanhas ironizando o uso da pele com um dos slogans mais famosos e inteligentes da história “It takes up to 40 dumb animals to make a fur coat, but only one to wear it” (algo como “São necessários 40 animais para se fazer um casaco de pele, mas apenas um animal idiota para usá-lo). Hoje, a indústria fashion revela uma mentalidade mais madura e preocupada com essa discussão, mostrando que pele nunca esteve tão fora de moda. 

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