O street style chegou ao ponto de saturação?

Fotógrafos apontam que sim e que, para sobreviver, é preciso olhar para trás e para todos.

Não faz muito tempo, revistas de moda reportavam mais sonhos do que realidades. Suas páginas eram preenchidas por editoriais superelaborados, mas um tanto desconectados de contextos reais. Se hoje o mix é mais diverso e ligado ao que acontece no mundo, o street style tem um papel de destaque nessa conquista. A ideia de colocar as imagens de pessoas na rua veio da necessidade de as publicações se aproximarem do interesse e da vida de seus leitores. Uma adequação aos novos tempos internéticos, em que os bastidores despertam muito mais interesse do que o palco – ou a passarela. Só que a popularidade do fenômeno foi tão estrondosa que se tornou inevitável questionar alguns pontos sobre o assunto. Um deles é a própria autenticidade do que se vê nessas fotos. “As portas de desfiles ainda rendem muito material porque concentram uma enorme quantidade de gente em torno da moda, mas estão desgastadas”, analisa Leo Faria, fotógrafo e colaborador de ELLE. “Falta espontaneidade na forma como as pessoas se vestem, já que, muitas vezes, usam um full look da marca que vai desfilar ou são pagas por outras. Hoje prefiro uma foto em que algo está meio errado do que uma imagem perfeita.”

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Depois de cinco anos rodando as maiores capitais da moda em busca do clique perfeito, Leo está voltando seu olhar às premissas de Bill Cunningham e de Hans Eijkelboom. Tanto o icônico fotógrafo de street style do The New York Times quanto o artista holandês autor do livro People of the Twenty-First Century (Phaidon, 2014) acreditavam que um fotógrafo deveria passar despercebido. Durante o processo de produção de sua famosa série, em que buscava a repetição de roupas e atitudes, Hans declarou, inclusive, que posicionava a câmera próxima ao peito para não atrapalhar a espontaneidade do momento. Para ele, a fotografia de rua era relevante porque tem o poder de “representar escolhas individuais dentro das possibilidades de uma sociedade do consumo”.

People Of The Twenty First Century Hans Eijkelboom

 (Hans Eijkelboom/Reprodução)

Outro ponto importante diz respeito à diversidade. O street style se tornou determinante na construção da imagem da moda atual, e retratos realmente representativos são cada vez mais urgentes. Em um artigo recente, o site The Cut questionava exatamente isto: se o street style não estaria negando sua essência ao focar em mulheres brancas e magras. Afinal, se ele nasceu como uma forma de diversificar o que era tradicionalmente visto na mídia, o ter se tornado homogêneo não apenas perpetua noções de exclusão mas também as reforça.

Foi com isso em mente que a britânica Bethany Rutter lançou em fevereiro o livro Plus+, o primeiro da categoria que visa as mulheres plus size. “Fazer um livro de street style foi a maneira que eu encontrei de reivindicar esse território”, diz ela. “Mulheres gordas, negras, trans ou do Hemisfério Sul são normalmente as mais criativas e estilosas, mas as que recebem menos atenção dos fotógrafos do meio. Queria mudar isso.”

Plus+ Book Capa do livro “Plus+”.

Capa do livro “Plus+”. (Reprodução/Reprodução)

O problema, assim como em toda indústria, é estrutural. Há pouca diversidade quando olhamos até entre os convidados de um desfile. Porém captar o pouco que existe é essencial – e também faz parte do trabalho de um fotógrafo. “Quando comecei a viajar para as semanas de moda internacionais, percebi que apenas as mulheres magras, altas e famosas eram fotografadas”, explica Leo. “Era um enorme frisson em torno de nomes como Chiara Ferragni e Olivia Palermo. Hoje, sinto que as coisas começaram a mudar por causa da discussão em torno da diversidade e representatividade. A fotografa de street style, assim como a fotografa de moda em geral, ainda está muito presa a padrões convencionais e estereótipos. Essa é mais uma mudança de paradigma que o próprio fotógrafo precisa buscar. A diversidade está ali e merece ser retratada e não ignorada”, continua ele.

Honestamente, não olho mais para o street style porque o que acontece hoje não é mais street style. É apenas ‘fashion week street style

Garance Doré

Para quem pegou a onda desde o princípio, como a francesa Garance Doré, tudo isso já passou do ponto de saturação. É por isso que ela hoje prefere dedicar seus cliques às mulheres que a inspiram em diferentes contextos, sem a preocupação de ficar presa à porta de um desfile. “Honestamente, não olho mais para o street style porque o que acontece hoje não é mais street style. É apenas ‘fashion week street style’, e eu não acho isso muito inspirador. Você sabe quem e o que esperar”, afirma Garance. Para ela, vivemos uma era em que as pessoas não precisam do olhar de um fotógrafo para fazer o seu look do dia.

Garance acredita que o futuro está em estreitar o olhar para comunidades menores. Algo que acontecia nos anos 1970, até mesmo antes de Bill, com nomes como Jamel Shabazz, fotógrafo norte-americano negro, que, na adolescência, pegou uma câmera e começou a registrar seus amigos que curtiam hip-hop no Brooklyn. Ou o japonês Shosuke Ishizu, que, nos anos 1960, retratou como o estilo das universidades norte-americanas de elite estavam influenciando o modo de se vestir dos jovens de Tóquio. Leo Faria, por sua vez, já está mirando suas lentes num novo projeto: “Quero passar os próximos três anos percorrendo cerca de 40 países para fotografar nas ruas de cidades que não fazem parte do circuito de moda tradicional”, entrega. A ideia é mostrar como as pessoas comuns e de diferentes culturas interpretam a moda, cada uma à sua maneira. “É retratar o street style real, sem filtro.”

Afinal, como sugere Garance, é hora de assumirmos que a fotografa de rua vai muito além da porta de um desfile ou de um full look com as maiores tendências do momento. Quando bem usada, ela é um ótimo instrumento de medição do tempo, um registro poderoso de como grupos de diferentes contextos podem se relacionar por meio das roupas.

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