Para cada Gisele, há milhares de mocinhas sem nome

Em sua coluna Visões de Vivi, nossa editora discute os assuntos mais relevantes do momento na moda.

Na batalha dos lifestyles, a vida de operário não faz a cabeça do hype. O bom é ser estrela, celeb, patrão, influencer, diretoria, aquele 1%. A questão é que o mundo e a moda são feitos pelos outros 99%. Para cada criador, existem costureiras, bordadeiras, modelistas, motoristas, jornalistas, modelos. Gente que trabalha muitas horas por dia para criar as imagens que estão nas revistas, nos desfiles, nas lojas, brilhando na TV, no cinema, nas redes.

Modelo, por exemplo, virou sinônimo de glamour. A moça que nasce bonita, ganha dinheiro por ser o tipo de linda que o mercado elegeu. Mas nada é bem assim. Para cada Gisele, são milhares de mocinhas sem nome, mais um rostinho na fábrica de lindas em que tantas moças são operárias.

Recentemente, essas moças começaram a se unir. Nos EUA e na Europa estão em curso discussões sobre novas leis para proteger a categoria. Com nomes fortes, como Cameron Russell e Adwoa Aboah, à frente, a coisa tomou forma. Mas foram as denúncias de centenas de new faces sobre assédio sexual e moral, racismo e jornadas exaustivas que deram força ao movimento.

A ideia é afastar da indústria assediadores, proteger especialmente as menores de idade e regulamentar a profissão com mais limites. As mais novas são as mais expostas a situações de risco. O jogo de poder é muito desigual, e o poder vem mesmo da união.

As costureiras também estão se organizando. Os trabalhadores das indústrias têxteis, aliás, têm um histórico mundial de revolta contra condições de trabalho precárias e destrutivas. No Brasil, movimentos como o slow fashion e a moda transparente (que abre suas contas, mostrando quanto e como paga seus funcionários) estão liderando uma nova visão, mais humanista da indústria, que lida com denúncias de trabalho escravo.

A luta contra o racismo na moda também ganhou força, especialmente com coletivos negros ganhando espaço nas semanas de moda. Trabalhos como o do estilista Apolinário, da Cemfreio, na SPFW, e as apresentações de Isaac Silva e do Brechó Replay na Casa de Criadores são exemplos disso. São discursos protagonizados por criadores negros, que usam a própria voz para contar suas histórias e demandas.

Entenda este texto como uma releitura da obra Operários, de Tarsila do Amaral. No quadro, rostos anônimos de trabalhadores aparecem à frente de uma fábrica em operação. Sua disposição segue as chaminés da indústria, como se dessem forma à construção. Pense em cada imagem de moda que você já viu e imagine o rosto de todos que as transformaram em realidade. São muitos.

Na obra de Tarsila, em meio aos operários, ela pintou os rostos de Mário e Oswald de Andrade, um statement sobre o lugar do artista. Para cada sucesso comercial, milhares de atores, bailarinos, compositores, pintores estão na batalha. O artista não precisa ser panfletário ou partidário, mas, como diz a canção, deve ir aonde o povo está. O mesmo vale para os criadores de moda.

Isso não quer dizer fazer demagogia nem voto de pobreza. É uma questão de união e de uma visão mais sofisticada do mundo. A palavra está nas ruas, nos birôs de trends, nas cooperativas, nas empresas sustentáveis: o único novo luxo possível virá do combate à exploração.

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