Paulo Borges fala à ELLE sobre as mudanças no calendário do SPFW

Em 2017, a principal semana de moda do Brasil vai acontecer em fevereiro e em junho para diminuir a distância entre a passarela e as vendas.

Hoje, pela manhã, Paulo Borges – o fundador do São Paulo Fashion Week e presidente da Luminosidade – divulgou que o calendário da semana de moda paulista vai mudar no ano que vem. O intuito é alinhar-se ao sistema “see now, buy now” que está sendo adotado por cada vez mais marcas internacionais de peso. Sem a clássica divisão de inverno e verão, as coleções de 2017 em diante serão desfiladas em fevereiro e em junho depois de exibidas à imprensa e aos compradores que – devido a um contrato de embargo – devem se comprometer a não divulgar essas imagens e informações. Já explicamos em ELLE como o processo tem acontecido lá fora, e agora, Paulo nos conta em entrevista os impactos dessa mudança no mercado de moda brasileiro.

Vanessa Friedman, jornalista de moda do New York Times culpa os smartphones por essa intensa aceleração do sistema da moda. Qual foi a influência da internet nessa sua decisão de mudar as datas do evento?

Nos últimos dois anos, a gente vem conversando com as pessoas e sentindo que as redes sociais estão tomando conta do desejo, é realmente uma força muito poderosa. O SPFW, na verdade, por 17 anos sempre esteve próximo do varejo e muito atento às mudanças tecnológicas. Depois tivemos um momento em que, a pedido do mercado, nos afastamos para dar o tempo que as marcas precisavam para estruturar os seus processos de produção, showrooms e etc. Mas agora voltamos a algo que já fazíamos. Nosso país é jovem, a gente precisa abrir e construir essa cultura de moda por aqui. Lá em 2007, o tema do evento naquela temporada era “broadcast”. Tinha uma instalação com uma mesa gigante preparada para que as pessoas fizessem sua própria cobertura. As redes sociais transformaram uma ferramenta midiática que já era forte em algo interativo que gera desejo no ato. Há dez anos, o que estava na passarela era uma coisa e a vida real era outra. Hoje, as pessoas querem consumir o que está sendo desfilado: as coleções cápsula são um sinal desse movimento e as influencers que aparecem na sala de desfile com a roupa que vai ser apresentada também. Isso já começou e depois de falar com muita gente, notamos que era uma medida benéfica para todo o mercado.

Como você acha que os estilistas vão se adaptar ao novo calendário sem a diferença de estações?

Depende de cada uma delas, se quiserem adotar, adotam, se não, não. Tem muita gente que não faz inverno ou verão, dá nome a coleção, traz um conceito e é isso. Na verdade, ninguém mais compra pensando na estação. O que move alguém a comprar algo é o desejo. É um momento novo da moda que pode voltar a olhar a criatividade ou se tornar mais comercial. O que acontece é que existe uma convergência entre o que o estilista vai propor e o que o cliente espera. Acho que isso coloca o Brasil na frente: uma vez que Nova York está pensando se vai ou não entrar nessa e nós já tomamos uma decisão. O mesmo aconteceu quando começamos com as transmissões online e ao vivo. Para os franceses isso foi considerado um sacrilégio praticamente, mas hoje boa parte dos desfiles de lá tem livestream.

Amir Slama disse à ELLE que tem percebido que o SPFW tem se direcionado a uma imagem mais voltada para o consumidor final e essa foi uma das razões que o levou a voltar para o line-up. Este é um intuito da Luminosidade ou as coisas tem caminhado naturalmente para isso?

Eu sempre falo que o que me fascina na moda é o meu amor por entender os outros. Por isso, a gente sempre conversa, questiona e é assim que conquistamos nosso status de inovadores. Nós sabemos gerar uma grande notícia, o SPFW não é um dos três maiores eventos que geram mídia espontânea à toa. Eu concordo com o Amir, mas não acho que foi nem mera coincidência, nem algo planejado – foi o resultado do nosso olhar atento a tudo que está sendo feito sempre no intuito de ser uma plataforma que reconheça o design do país e direcionada ao mercado de moda brasileiro.

Em Londres, muitos estilistas pequenos não vem mais a necessidade de desfilar: preferem apresentações pequenas para buyers e imprensa. Com essas mudanças, quem está começando vai ter mais ou menos dificuldade para se lançar no mercado de moda?

Isso vai favorecer todo mundo. Do pequeno e médio até o grande. Primeiro porque o desfile é uma ferramenta que comprovadamente tem uma força midiática gigantesca. O que qualquer um precisa fazer é empregar desejo, despertar o querer com o novo, com a qualidade. Se você pode comprar o produto logo em seguida, ele parece mais novo, funciona melhor na loja. Atualmente, quando uma roupa chega nas araras, ela já está velha. Todo mundo já viu e por isso, depois de dez dias já é preciso liquidar. Nesse sentido, a mudança vai trazer benefícios independentemente do tamanho da marca ou do estilista. Se você falar com o Reinaldo Lourenço ou com o Fause Haten vai descobrir que eles já trabalham assim.

Alguns players da moda já se colocaram contra a mudança para o “see now, buy now”, o Karl Lagerfeld é um exemplo disso. A Semana de Moda Parisiense também se recusou a mudar. François Henri Pinault, CEO do grupo Kering diz que a medida “nega o sonho do luxo”. Como você responderia a esses comentários?

Não existe apenas uma maneira correta de fazer desfile. O Lagerfeld e a Chanel têm suas razões para negar ou aceitar esse processo. Inclusive, essa multiplicidade de opiniões tem muito a ver com a modernidade. O que eu acho é que a velocidade da tecnologia e das redes sociais só vai aumentar e se você não se adapta a esse sistema, pode acabar estrangulando algo que é irreversível. A moda sempre quis crescer e ela conseguiu. O desfile não é mais só para quem está sentado na primeira fila, é para uma quantidade muito maior de pessoas que torna essas apresentações mais fortes e mais importantes.

 

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