Perguntamos no SPFW: O que caracteriza a moda brasileira?

Aproveitamos a oportunidade da semana de moda para conversar com os estilistas sobre questões existenciais da nossa indústria.

Agora que a IMM Participações — empresa de propriedade do fundo de investimentos Mubadala Development Company de Abu Dhabi — adquiriu a porção majoritária do SPFW, muito e fala do evento enquanto plataforma para catapultar os estilistas participantes do line-up ao mercado internacional. Por isso, entra em debate a identidade da moda brasileira. O que de fato estamos trazendo de novo para um público que, de certa forma, já está saturado pelas propostas de capitais como Nova York, Londres, Milão e Paris. Enquanto as semanas de moda mais tradicionais lutam para sobreviver, como podemos entrar nessa jogada de uma vez por todas? Assim, conversamos com os estilistas do SPFW sobre o assunto. Abaixo, confira as respostas de alguns deles.

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Luiz Cláudio, da Apartamento 03

“Tudo é muito recente por aqui. A moda começou lá atrás, então vamos puxando todas as coisas que já existem. Tudo o que já existe a gente faz da nossa forma brasileira ‘caipira’ (risos). Não adianta, acho que o Brasil tem muito isso. Estamos ainda aprendendo, mas uma coisa nós temos: a característica de fazer bem feito.”

Lenny Niemeyer

O Brasil é minha inspiração mesmo não sendo meu tema. Eu acho que é o Brasil que me inspira e sempre inspirou as minhas coleções. A moda brasileira é muito diversa, e isso acaba entrando muito na nossa imaginação. É uma moda colorida que nos inspira não apenas fazer, mas ousar.

Lívia Cunha Campos, da Beira

Infelizmente, criou-se um estereótipo do que é brasileiro. A minha tentativa é de fazer alguma coisa útil, não que necessariamente faça sentido. Faço isso por prazer e o que a gente tem aqui é um lugar muito particular onde se pode ousar.

Renata Alhadeff e Fernanda Niemeyer, da A.Niemeyer

Acho que a moda brasileira é muito autêntica, apesar de acreditar que ela segue uma linha muito diferente da nossa. Eu diria que ela veste uma mulher mais sexy e a gente trabalha no sentido oposto. Não completamente oposto, claro que existe uma feminilidade que nós queremos trazer, mas nossa principal causa é a busca pelo conforto nas modelagens de uma forma atemporal. É um lifestyle diferente.

Jacqueline de Biase, da Salinas

“A moda praia tem uma trajetória que começou a ficar importante dos anos 1970 para cá. Ela acompanha muito o comportamento das mulheres. As mulheres vão evoluindo e crescendo, cada vez mais fortes. E nossa característica na Salinas é fazer um biquíni respeitando esse corpo. Nós sempre observamos muito as pessoas. Porque quando observamos o que elas fazem, a gente devolve para elas — claro que não vamos fazer exatamente o que elas estão pedindo — mas a gente percebe o que elas estão pedindo no inconsciente. A ideia é devolver isso com novidades, com informação de moda e coisas que talvez elas não tenham ou nem esperam. Acho que moda vai encaminhar pra isso, para respeitar as pessoas.”

Rafael Varandas, da Cotton Project

“Para começo de conversa, o que é a identidade brasileira? Você pode ter um Brasil africano, indígena, europeu… Normalmente, se associa ao Brasil alguns elementos tropicais, Amazônia, ou então fala-se de pobreza, das favelas do Rio de Janeiro. Nesse sentido, a Cotton Project está distante desses esteriótipos. Nascemos aqui e talvez isso tenha algum significado, mas nunca faremos nada literal. Antes as coisas eram muito mais fechadas aqui, a nossa marca surgiu num momento de globalização, com um nome em inglês exatamente pra facilitar a circulação pela internet. Mesmo assim, poderíamos nos conectar mais com a originalidade que existe aqui. Essa coleção tem a história do trabalhador rural, nas peças mais conceituais, você vê que é algo nosso, mas jamais iremos apelar para a obviedade.”

Lino Villaventura

“A moda brasileira, ao meu ver, deu uma parada em geral, com raras exceções. Mas eu acho que nós estamos precisando da originalidade sempre. O discurso está muito parecido, todo mundo está falando da mesma coisa. E essas coisas não podem existir apenas só pelo discurso, elas têm que fazer parte da vida da gente. É educacional, é da educação de um povo. Mas, eu acredito que a gente está passando por um momento de transição. Daqui a pouco tudo se torna diferente, e as coisas podem vir de uma maneira mais profunda e mais original.”

Ronaldo Fraga

Quando você quer perguntar como anda a moda, é o mesmo que perguntar como anda o mundo. Porque a moda é um documento eficiente do mundo. Se ela se mostra vazia agora, se ela se mostra sem lugar com gosto de plástico, ela está retratando o mundo, está retratando esse tempo. Então, nisso, ela está fazendo o dever de casa.

 

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