Pierre Cardin: “A desordem da vida se encontra na moda”

Celebrando 70 anos de carreira com um lançamento, Pierre Cardin bate um papo exclusivo com a ELLE e reflete sobre o passado e o futuro.

Pierre Cardin soube como poucos mirar o futuro para deixar a sua marca. Utilizou o boom da era espacial a seu favor para criar peças que permanecem modernas até hoje, foi o primeiro a fazer um desfle em uma loja de departamentos, a apostar no prêt-à-porter e a investir nos mercados japonês e chinês. Aos 95 anos e celebrando 70 de carreira, o estilista segue animado e com fôlego para mais um lançamento: uma edição limitada de óculos de sol batizada de Evolution 05, prevista para ser lançada em 2018 pelo grupo Saflo.

“Penso como um escultor. Crio uma forma. É um processo em que o que importa é criar uma linha que não estava lá antes”, explica o designer sobre a peça, desenvolvida em parceria com o sobrinho Rodrigo Basilicati, responsável pelos acessórios da etiqueta. Os óculos são inspirados no legado de Pierre, como as maxilentes claras e coloridas com visores de plástico dos anos 1970, assim como as peças arquitetônicas de acetato e os clássicos óculos Evolution 01, com hastes transparentes.

Apaixonado pelo que faz, Pierre não pensa em pisar no freio. “Trabalhei todos os dias da minha vida. A primeira coisa que faço sempre ao chegar ao escritório é pegar um papel e desenhar”, conta, esboçando rapidamente um croqui de um vestido num fyer qualquer que encontra em meio aos papéis em cima de sua mesa, em um dos escritó- rios que mantém na Avenida de Marigny, em Paris. “Hoje arrumamos tudo para receber vocês”, explica.

Futurista, visionário e investidor no mundo da gastronomia, Pierre é também proprietário da rede de restaurantes Maxim’s e da linha de produtos da marca, o que inclui desde latinhas de bolacha até mobiliário. No mercado imobiliário, ele é dono do Palácio de Casanova, em Veneza, do Castelo do Marquês de Sade, em Lacoste, do Palácio de Bolas, em Téoule-sur-Mer, de teatros, de barcos à beira do Sena e por aí vai. É vasto e riquíssimo tudo o que o designer experimentou e realizou ao longo da vida. Na intimidade, viveu quatro anos com a atriz Jeanne Moreau antes de assumir sua homossexualidade. Entre fotos históricas e lembranças, como a do dia em que vestiu o macacão espacial com que Neil Armstrong foi à Lua, conversamos durante duas horas com esse ícone sobre sua trajetória de sucesso.

pierre_cardin

 (Fe Pinheiro/ELLE)

Você deve ter muitas boas recordações destes 70 anos de carreira. Qual a mais importante de todas elas?

Ter sido convidado para participar da Academia de Belas- -Artes Francesa. É a mais rara distinção que um homem pode ter. Nós somos 45. Foi o melhor presente que a vida me deu: ser um membro da academia.

Pelo seu trabalho com a moda?

Pelo homem que sou e pelo meu trabalho com a moda. Jamais houve um membro da academia que fosse um costureiro. É a maior honra que tenho. Além do mais, não fui eu que pedi para entrar. Foi a Academia que me convidou.

Como o senhor conseguiu criar um império como estilista e homem de negócios?

Fazer um nome é muito difícil. Quando consegui ser aceito em várias áreas, pensei: vou utilizar isso. Vou comprar o que puder para que eu possa ser mais bem-aceito ainda. É também muito raro essa aprovação em todos os níveis: moda, diplomacia, gastronomia, artes. Sou embaixador da Unesco, acadêmico, costureiro, empresário, mecenas. É uma paleta de trabalho enorme.

O senhor pensa em trabalho o tempo todo? O seu cérebro está sempre ligado em novos projetos? Como consegue financiar todos eles?

Eu tento ter a cabeça ligada em tudo. Faço perfumes, roupas, esculturas, livros. Tudo é meu e não existe nenhuma parte de capital estrangeiro. Sou o único a ter controle de tudo. Sou empresário e criador!

Criador que continua a criar.

Isso é o importante. Se não fosse assim, não teria conseguido. Eu continuo todos os dias a trabalhar no ateliê e nos estúdios, nos negócios e na diplomacia.

Qual é o seu segredo? Ser incansável?

Agora ando com um pouco de dor nas costas, mas sempre trabalhei muito. (Aparentemente é a primeira vez na vida que ele se queixa de questões de saúde. Ele se orgulha de nunca ter tomado remédios regularmente.) Sempre tive a nobreza de trabalhar. A verdadeira nobreza está aí e esse é o segredo do meu sucesso. Veja todos os condes, duques etc. Se não tivessem herdado os títulos, não seriam nada. Herdar não tem valor nenhum. O verdadeiro valor para mim está no trabalho.

Como funciona a parceria com Rodrigo Basilicati na vida e para o lançamento do Evolution 5?

Na minha vida hoje, existem o telefone e Rodrigo. Ele é meu sobrinho. Criamos juntos esse modelo que será lançado em uma edição especial no mundo inteiro. São 500 exemplares, mas podemos fazer mais depois. Eles serão lançados como uma das tantas realizações que fiz durante a minha vida como designer. Sempre amei as formas futuristas, lunáticas.

O que prefere desenhar nos dias de hoje?

Vestidos! Eu sei fazer tudo. É meu métier, desenhar e costurar. Mas desenhei outras coisas, como frascos de perfume. Todos os que você vê aí na prateleira fui eu que desenhei.

O senhor se considera uma pessoa de personalidade fácil?

Eu não olho o que é ruim, apenas o que é bom, e não deixo transparecer meus problemas. Eu deixei isso acontecer durante um momento de minha vida, mas tento sempre estar de bom humor e continuar trabalhando.

Qual o seu lugar preferido no Brasil?

Do norte ao sul, gosto de todos os lugares por onde passei no Brasil, como Maceió. Também amo o México. Viajei muito por esses dois países e por muitos outros. Conheci muita gente e cheguei a ficar hospedado em Cuba na casa de Fidel Castro, a convite do próprio.

O senhor tem muitos projetos ainda?

Para existir, temos que ter sempre projetos. É a regra para viver bem e ir em frente. Fui convidado pela Sotheby’s para receber uma homenagem em janeiro próximo pela minha carreira de designer de móveis.

Qual o seu lugar preferido para estar hoje?

Na minha cama!

Quais são os seus segredos para estar sempre em forma?

Nunca fiz esportes, nunca fumei, nunca bebi. São hábitos que nunca me fizeram falta e não são um problema para mim. Trabalhei a minha vida inteira, 20 horas por dia. Estou exagerando… 16 horas.

Como vê a moda atual?

Ela é livre. A desordem da vida se encontra na moda. A vida é o reflexo da moda, ou ao contrário. É a mesma coisa. Ninguém sabe aonde ir, o que fazer, não existe ambição nem personalidade. Isso acontece no mundo inteiro, inclusive no Brasil, eu imagino. Mas isso vai mudar. A moda não é algo estagnado. É um momento. É muita guerra, religião, muitos deuses, e isso torna as coisas impossíveis, desordenadas.

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