Por que Karl Lagerfeld está falando tantos absurdos nesta entrevista?

O estilista se posicionou contra os movimentos anti-assédio como #MeToo e #TimesUp.

Karl Lagerfeld não é um nome qualquer no mundo da moda. Apesar de estar trabalhando nessa indústria há 60 anos, ele nunca perdeu a sua relevância graças aos cargos altíssimos que ocupa (sem descanso) em duas das maiores etiquetas de luxo do mundo: Fendi e Chanel. O “kaiser” — como é chamado dentro do circuito fashion — é, inclusive, famoso por sua obsessão por trabalho. Não à toa, em tempos de tanta instabilidade entre direções criativas, ele permanece intacto em seu(s) trono(s).

É exatamente pela proporção de seu sucesso que sua mais recente entrevista causou estranhamento, apesar de ele já ter dado outras declarações polêmica. Desta vez, conversando com a revista francesa Numéro, o designer revelou-se oposto aos movimentos contra o assédio sexual em Hollywood e na indústria da moda. “Estou cansado disso”, disparou a respeito da #MeToo. “Fico chocado em saber que demorou vinte anos para as pessoas lembrarem do que aconteceu e começarem a denunciar. Sem mencionar o fato de que não existem testemunhas para nenhuma dessas acusações.”

Apesar de descreditar o discurso de quem sofreu assédio, ele disse que odeia Harvey Weinstein — o produtor hollywoodiano cujos numerosos casos de comportamento sexual inapropriado causaram revolta entre diversas atrizes que, por sua vez, deram início a esse diálogo na esfera pública. No entanto, o motivo do ódio em nada se relaciona com qualquer um desses acontecimentos: “Eu tive um problema com ele no amfAR, foi uma questão profissional. Não vou entrar em detalhes, mas não posso dizer que ele é um homem que mantém a sua palavra”, resumiu.

“Uma garota reclama que alguém puxou suas roupas íntimas e imediatamente essa pessoa perde a sua profissão? Acho que estamos delirando. Se você não quer que isso aconteça, não seja modelo. Melhor ir para um convento”, sugeriu em defesa de Karl Templer, stylist acusado de ter abusado de uma modelo durante um shooting.

Leia mais: Bruce Weber e Mario Testino são acusados de assédio por modelos

Sua repulsa pelas vítimas de assédio e por sua militância é tão grande que o designer está até desencantado da moda masculina. “Não quero mais desenhar para esses modelos levianos… As acusações deles, para falar a verdade, estão se tornando uma coisa tóxica. Socorro, não me deixem sozinho com essas criaturas sórdidas.”, disse provavelmente sobre os modelos que acusaram grandes fotógrafos de moda recentemente.

Em um momento em que a moda parece estar se abrindo para entender as demandas das minorias, é decepcionante, para dizer o mínimo, ver alguém cujo trabalho é capturar o espírito do tempo em roupas — e que, além disso, já falou diretamente de feminismo em algumas de suas coleções — soltando opiniões que representam o que há de mais terrível no passado. Talvez funcione para nós como um alerta de que as mudanças que imaginamos que estavam acontecendo ainda sofrem muita resistência.

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