Se você não gosta de Björk, o que é bonito para você?

A cantora islandesa está prestes a lançar um disco e, para comemorar, relembramos a importância de seu estilo para expandir o que se entende por beleza.

Quando fazemos uma retrospectiva dos looks que Björk usou para grandes premiações e eventos de gala, um olho menos treinado a jogaria diretamente na lista das mais mal vestidas de qualquer Fashion Police da comediante Joan Rivers. De cara, eles são realmente muito estranhos, mas vale a pena refletir sobre o que esse adjetivo significa. Por que tudo aquilo que se categoriza como “estranho” imediatamente é entendido como ruim, marginal, merecedor de isolamento ou de censura? Será que não há beleza alguma em um vestido de cisne? Ou em desafiar um impositivo dress code formal e surgir com algo completamente fora da caixinha? O que define essa beleza que tanto procuramos nas celebridades que pisam no tapete vermelho?

Para descobrir a origem do “belo” que agrada os olhos da maior parte da população, normalmente olhamos para a história da arte. Mas se a história da arte que se aprende no mundo ocidental é colonizada e ligada a uma ancestralidade europeia, branca, higienizada e dita “civilizada”, vemos que a própria estrutura da construção desse saber já nos revela uma limitação. Ou seja, esse belo universal foi criado por quem sempre esteve no poder e pretende se manter lá. No limite, essa noção é uma das forças que ajuda a disseminar, por toda a sociedade, restrições corporais (“você está muito gorda”), imagéticas (“qualquer um poderia fazer um quadro desses”), sonoras (“o funk carioca não é música”), estéticas e, por que não, políticas (“você é muito radical”).

O guarda-roupa, a voz, a entonação, as letras, os clipes, as colaborações com outros artistas (entre eles o estilista Alexander McQueen, o casal de fotógrafos Inez e Vinoodh e os diretores Steve McQueen e Michel Gondry), em suma, toda a obra de Björk é um convite para um mundo que ignora em absoluto esse tipo de conservadorismo. A cantora e compositora islandesa propõe uma maneira diferente de identificar e categorizar beleza. A medida do belo é a verdade que ele carrega. Para começar a entender, preste atenção no figurino costurado na pele no clipe de “Pagan Poetry. Na elasticidade inumana das pernas vinílicas da cantora em “Lionsong”. Na careca digitalmente construída de “Hunter” e no 60’s subversivo de “It’s Oh So Quiet”.

Björk está sempre explodindo e implodindo em suas próprias emoções que ela, durante toda a sua carreira, nunca negou. A turnê de Vulnicura, seu último disco de estúdio, foi tão dolorida — por falar do término de um relacionamento de longa data — que ela desmarcou uma série de shows por não aguentar mais revisitar todo aquele sofrimento. Cada um de seus discos é um mergulho profundo no que se passa dentro de sua cabeça, no que faz o coração pulsar (como em “Hyperballad” de Post), o sangue subir (como em “Ancestors” de Medulla), o corpo se movimentar (como em “Big Time Sensuality” de Debut), os olhos lacrimejarem (como em “Black Lake” de Vulnicura)…

Isso assusta porque, de fato, a possibilidade de sermos indivíduos únicos e tão ricos de volatilidade, como ela, ameaça uma revolução interna. Afinal, quem está a fim de se transformar? Quem está a fim de dizer adeus às seguranças que nos fazem acordar todo dia e ir para o trabalho continuar vivendo dentro do universo que nos foi programado? Por isso, atacamos. É feio, é estranho, é horrível. Um medo que pode se transformar em intolerância e que, no passado, fez a Igreja matar as bruxas e hoje ainda ecoa em racismo, homofobia, feminicídio…

Precisamos aceitar que há uma dimensão política para o conceito de beleza. Quando ele se expande — que é o que acontece quando vê-se e ouve-se Björk com o coração aberto –, as diferenças tornam-se mais toleráveis e, de repente, até instigantes. Passam a gerar curiosidade e, depois de um tempo, encantam. Assim, a vida deixa de ser uma busca limitante pela repetição de um clássico greco-romano e transforma-se no que ela realmente é: um universo de possibilidades infinitas prontas para serem exploradas. Como diria a islandesa: All is full of love.

Newsletter Conteúdo exclusivo para você
Comentários
Deixe um comentário

Olá, ( log out )

* A Abril não detém qualquer responsabilidade sobre os comentários postados abaixo, sendo certo que tais comentários não representam a opinião da Abril. Referidos comentários são de integral e exclusiva responsabilidade dos usuários que escreveram os respectivos comentários.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s