Sterling Ruby e Raf Simons estão criando uma nova Calvin Klein

Ao produzir os acessórios e algumas roupas do desfile, Sterling Ruby solidifica seu duo com Raf Simon e se torna peça-chave para a nova imagem da marca.

A moda e a arte estão em constante cruzamento, isso é um fato. Seja na busca de inspiração estética ou nas diversas colaborações entre estilistas e artistas, a indústria sempre flertou com universo artístico. “A moda bebe da arte na busca de uma independência que não possui”, pontua o estilista e professor de moda da Faap Lorenzo Merlino. “Os estilistas enxergam nos artistas uma liberdade que não conseguem alcançar, pois estão presos ao calendário de entregas de coleções e à pressão por bons resultados comerciais”, complementa. Por meio da arte, a moda tenta se libertar de suas amarras, mas nem sempre consegue.

São muitos os exemplos de colaborações históricas, como o vestido lagosta de Salvador Dalí e Elsa Schiaparelli, as coleções de Yayoi Kusama e Takashi Murakami para a Louis Vuitton, a linha de Damien Hirst com Alexander McQueen e a de Anselm Reyle para a Dior. Porém nem sempre há uma solidez por trás dessas parcerias e, em alguns casos, o trabalho do artista pode ficar banalizado ao se tornar apenas um pano de fundo para a venda de roupas e acessórios. “Esse tipo de projeto, um artista convidando um estilista para colaborar com seu trabalho, ou o contrário, me parece interessante e importante por quebrar as barreiras entre dois campos potentes de criação. No entanto, é importante que não haja uma hierarquia e que ambos criem uma sintonia e um diálogo criativo que não seja limitado pelas amarras do mercado ou de uma autoria predominante. De modo que nem estilista nem artista terminem servindo apenas de pano de fundo para o discurso do outro”, sugere o stylist e artista Maurício Ianês.

Esse não parece ser o caso de Sterling Ruby e Raf Simons. A dupla possui um longo histórico de colaborações, mas desde que o estilista belga assumiu a direção criativa da Calvin Klein, a parceria se solidificou ainda mais. Tanto que nessa última temporada de moda, em Nova York, Ruby não só assinou a cenografia do desfile como também uma parte dos acessórios e roupas da coleção. “O caminho que a parceria tomou nesse desfile foi mais positiva”, diz Ianês. “Dessa forma, o trabalho do Sterling Ruby não foi descontextualizado nem serviu apenas de cenário e decoração para um desflie dos produtos da marca. Vejo agora uma simbiose maior entre os dois, no sentido de que ambos os criadores propuseram um diálogo mais horizontal e entrosado, evitando uma simples apropriação estética ‘espetacularizante’”, explica.

Calvin Klein

 (Fotosite/Agência Fotosite)

A imagem que Simons está criando na etiqueta, de um Estados Unidos às avessas, está em sintonia com a obra de Ruby, que sempre tratou de temas como as gangues urbanas, o grafite, o movimento punk, a violência e o consumo massificado dos norte-americanos. São de autoria de Ruby todos os pompons do desfile de Simons, desde os acessórios de lã e couro, que acompanham bolsas e looks aos vestidos produzidos com materiais simples, como plásticos e rede. Tudo para descontextualizar o acessório usado pelas líderes de torcida, um dos principais símbolos da cultura local. “O trabalho de Simons tem uma solidez narrativa e estética de grande força”, reflete Ianês. “Abrir a possibilidade de Ruby criar acessórios e vestidos junto a ele foi um passo importante para a parceria. Ainda que tanto os trabalhos do estilista quanto o do artista estejam vinculados à máquina do mercado, nessa coleção a potência crítica das obras dos dois, agora sendo desenvolvidos com mais intimidade, ganhou uma força que antes não tinha”, acrescenta.

Para Lorenzo Merlino, Raf Simons foi inteligente ao encontrar alguém que se identifique com a visão estética que ele quer construir na Calvin Klein. “Ele sobressai ao não tratar as marcas para a qual cria – como também fez na Jil Sander e Dior – de uma maneira devocional. Ele não se coloca em uma posição de adoração, algo que pode sufocar um estilista quando entra em um nível de grande responsabilidade como esse”, complementa. “Apesar de essa colaboração se aproximar de outras realizadas entre os dois, é muito importante que esse tipo de ação aconteça. A moda precisa de uma assinatura”, conclui Merlino.

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 (Calvin Klein/Divulgação)

Simons e Ruby se conheceram há mais de uma década, quando seu marchand na época, Marc Foxx, levou o designer ao estúdio do artista, em Los Angeles. Em 2008, Ruby ajudou o estilista a desenhar sua butique em Tóquio. Eles coproduziram uma coleção de jeans no ano seguinte e uma edição limitada de moda masculina em 2014, que contava com uma parka pintada a mão, valorizada em 30 mil dólares. Uma parte dos vestidos da primeira coleção de alta-costura que Simons criou para a Dior foram desenvolvida com tecidos pintados de verde e rosa, iguais a uma pintura abstrata de Ruby (um quadro similar foi vendido por quase 2 milhões de dólares num leilão da Christie’s, em 2013). “O ex-diretor do meu estúdio costumava dizer que nós somos irmãos de mães diferentes”, disse o artista sobre a relação da dupla em uma entrevista recente. “Eu cresci em uma fazenda na Pensilvânia, ele nasceu em uma pequena cidade rural na Bélgica. Ambos queríamos fugir daquilo e agora estamos aqui, andando na corda bamba, tentando descobrir o que fazer”, arrematou.

“Muitos artistas têm medo da moda porque acreditam que esse tipo de colaboração irá danificar sua imagem. Eu gosto quando um artista não tem medo e o melhor exemplo disso é Sterling”, revelou Simons numa de suas raras entrevistas. Na Calvin Klein, Ruby desenvolveu o cenário do desfile da primeira coleção, de inverno 2017, que depois se transformou em uma instalação para o corner que a marca inaugurou na Dover Street Market de Nova York e, mais tarde, na decoração da flagship da Calvin Klein na Madison Avenue.

Agora ele se aprofunda ainda mais no avesso norte-americano que Simons está construindo na grife e o resultado tem sido muito interessante, uma espécie de salvação para a moda norte- -americana, que passa por um momento de crise e saturação comercial. “O trabalho de Ruby já faz parte do universo de Simons há um tempo e a parceria parece ficar a cada dia mais sólida e, sem dúvida, a última coleção para a Calvin Klein se mostrou uma importante evolução no diálogo dos dois”, finaliza Ianês.

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