Tim Blanks: “a moda não tem nada a perder ao se arriscar”

Entrevistamos o lendário crítico de moda sobre diversidade, o fim do uso de pele na Gucci e os debuts da temporada.

O ciclo de palestras Iguatemi Talks está trazendo grandes nomes da moda para São Paulo. A primeira edição do evento, que acontece no Shopping JK Iguatemi, debate em bate-papos, palestras e workshops o momento atual da moda — e você pode conferir a programação completa no site do evento. Entre os convidados que vieram especialmente para o ciclo de conversas está Tim Blanks, o importante crítico que tem 35 anos de carreira fashion.

Para quem não se lembra, ele começou como apresentador (por acidente, já que não desejava trabalhar na área) do programa canadense Fashion File, e ficou no cargo até 2009. Depois disso, tornou-se editor do Style.com — quem já era aficionado por moda lembra do veículo como uma fonte inesgotável de fantasia e crítica de moda, principalmente em seu programa Throwback Thursday. Hoje, ele ocupa o mesmo posto no Business of Fashion, escrevendo algumas das mais intensas críticas da indústria. Em um domingo chuvoso, ele conversou com a ELLE sobre olhar de uma forma diferente para tudo o que está acontecendo na moda hoje.

A crítica de moda ainda é relevante nos dias de hoje?

O problema é que é muito difícil definir o que é a crítica de moda. Existe o comentário e a reportagem de moda, mas se você olha para outros segmentos, como filmes, livros e o teatro, todos têm crítica, e tiveram crítica por centenas de anos. A função da crítica nesses mundos é ser um critério com o qual você irá julgar algo. Quando você lê a crítica de um livro, você pensa: quero esse livro? Mas a crítica de moda não existe assim, eu não acho que alguém lia minhas críticas no Style.com e pensava: eu devo comprar essas roupas! A crítica de moda tem sido menos sobre definir e mais sobre entreter, de certa forma. São poucos os críticos que têm o poder de mudar a forma como as pessoas pensam sobre uma coleção. Minha forma de fazer crítica é a seguinte: quero mostrar para todos como é estar no desfile. Quero que vejam o que eu vejo, ouçam o que eu ouço, mais do que dizer se algo é bom ou ruim (o que eu faço, mas de forma mais sutil). Sempre tive mais interesse por colocar as pessoas no lugar em que eu estou porque são poucos os que podem ver os desfiles. E eles são incríveis! É claro que existe opinião. Mas eu nunca senti que a crítica na moda tem a mesma função que em outros segmentos.

Além de definir o que é bom ou ruim de forma imediata e transportar a pessoa para o desfile, a crítica também pode ser uma porta de entrada para um mundo e um contexto sobre o qual não estávamos pensando antes?

Isso é menos sobre crítica. Se a pessoa te dá outras formas de olhar para as coisas, para mim essa é a experiência mais válida. Se alguém escreve algo bom ou ruim, e tudo o que você tem para olhar são fotos, como você vai formular a sua própria opinião? Às vezes as pessoas dizem ‘li sua crítica e amei, mas eu olho para as fotos e não entendo’. Por isso, tento explicar tudo: a música, a maquiagem, explicar o contexto. Se você leu uma crítica de um filme, você pode ir até o cinema e ver o que o crítico viu. No caso da moda, não é possível rever o desfile ao vivo. Por isso, para fazer crítica de moda, existem coisas diferentes envolvidas. De certa forma, o que tento fazer é comunicar para as pessoas o que seria se elas estivessem sentadas onde eu estava sentado. Posso não fazer isso sempre, mas é a minha motivação.

Falando nisso, você sempre foi um outsider na moda. Isso ajuda a avaliar um desfile de forma menos afetada?

Eu comecei na moda por acidente, porque eu precisava de um emprego. Eu não sabia que 35 anos depois ainda estaria trabalhando nisso. Eu não me vejo como uma pessoa fashion, e isso me permite ver o que mais está envolvido na moda. Não sou obcecado com roupas, por isso vejo milhões de referências a mais do que a costura. A moda usa muito todos os outros segmentos criativos, e é por isso que a amo e ainda sou fascinado por ela. Sempre existem novas histórias para contar, sempre, em todas as temporadas. E eu amo ouvir e contar histórias sobre as coleções que estou vendo — mesmo que a história que eu conte seja diferente daquela que o estilista queria contar. Gosto de contar minha história. Sobre ser um outsider, digo que a coisa mais importante na vida é ser curioso. A qualidade mais importante que você tem que ter em tudo o que você faz é a curiosidade. Curiosidade e perspectiva se combinam de forma brilhante: a perspectiva é um túnel, e a curiosidade é a luz que te leva dentro desse túnel.

Como podemos avaliar o momento see now, buy now? Precisamos ter medo dessa nova forma de fazer moda?

Esse esquema funciona para algumas pessoas, mas um dos fundamentos principais da moda é o desejo. E um dos fundamentos principais do desejo é a antecipação. Quanto mais você espera por algo, mais você o deseja. É como ter um crush: ficar fissurado por alguém e dormir com ele 18 meses depois! As pessoas que realmente amam moda estão preparadas para esperar. Tommy Hilfiger faz o see now buy now, você olha e diz: ‘é, ok’… Não é como Gucci, Prada ou as roupas do Raf Simons, que as pessoas olham e dizem: ‘uau, meu Deus, eu quero’. É um approach mais econômico, que não funciona para todo mundo.

Tem algum designer brasileiro que chamou sua atenção ultimamente? É possível que São Paulo se torne uma grande capital da moda um dia?

A indústria está estruturada de uma forma que não há espaço para uma nova cidade ser mais uma capital da moda. O que eu acho é que podem acontecer coisas mais interessantes com São Paulo do que se tornar uma nova Milão, por exemplo. Ela pode se tornar uma expressividade do país. A indústria alemã, a da Antuérpia, ou Bélgica, por exemplo, são muito interessantes. Quando você está na Antuérpia ou em Tóquio, existem boutiques incríveis de designers que você nunca ouviu falar e que têm um negócio local muito interessante. Ter negócios locais saudáveis me parece melhor do que se tornar uma potência mundial. Se Nova York ou Londres entrarem em colapso e se tornarem cidades difíceis de morar, se os centros moverem-se, pode acontecer. Mas nada nunca vai superar Paris. É impossível. É um cultura fashion muito antiga, muito sofisticada e muito bem estruturada. Ela se move perfeitamente. A luz é melhor, o palco é melhor, a música… Tudo é organizado para fazer desfiles e para apresentar a moda da melhor forma. Essa não é a cultura de São Paulo, mas a cidade pode fazer contribuições significativas de forma diferente.

Eu sei muito sobre moda brasileira. O que eu gosto na moda daqui é o mesmo que eu gosto na moda da Austrália. Eu amo o que a Lenny Niemeyer faz porque tem integridade e contempla a cidade dela, sua cultura. Minha estilista australiana preferida é a Nicky Zimmerman. Em Sydney, ela faz exatamente a mesma coisa e o mundo ama. Essas são estilistas autênticas porque fazem o que fazem em seu ambiente, são reais. Sempre achei engraçado o Alexandre Herchcovitch, por exemplo, e sempre me perguntei: por que ele está fazendo a Antuérpia no Brasil? Faz tempo que não vejo o que ele faz. Carlos Miele também não é tão autêntico… Um maiô é um maiô, mas quando a Lenny Niemeyer ou a Nicky Zimmerman fazem é tão mais autêntico!

Leia mais: O olhar detalhista de Lenny Niemeyer em seus desfiles é exemplar

Quais foram os desfiles mais memoráveis dessa temporada?

Versace foi o desfile da temporada! Uma grande lição para a indústria da moda: looks que todo mundo conhece, mas nada nostálgico, o que prova que a moda nem sempre precisa ser nova. Na verdade, se for nova o tempo inteiro, você esquece o que há de bom no que você faz. Os estilistas também podem olhar para seu passado e não ter medo de revisitá-lo, da mesma forma que Donatella fez com o legado de seu irmão. Amei a Prada, sei que a marca está com dificuldades no momento, mas amei a coleção, amo a raiva, foi extremamente relevante. Amei o que Raf Simons fez na Calvin Klein, e também amei a Gucci — ambos não deixaram para trás o que foi feito na temporada passada. Eles estão evoluindo! Os designers mais interessantes têm desenvolvido suas teses durante várias coleções. Dries Van Noten foi incrível, extremamente lindo. No momento, a moda não tem nada a perder ao se arriscar. Não é sempre assim, e por isso a Gucci é tão incrível. Fazer o que o Alessandro [Michele] ou o Raf Simons estão fazendo é se arriscar. Sabe o que eu também gosto na moda? Que eu sempre me surpreendo com ela. Amei a Coach, por exemplo! Estou feliz que Stuart Vevers está fazendo um statement na marca.

Você tem estilistas preferidos?

Miuccia Prada é a maior, para mim. Mesmos nos desfiles que não são tão bons, as ideias são sempre fantásticas. Ela provoca, desafia, não tem medo de ideias grandes. Dries, pela mesma razão. Craig Green, em Londres. Amo Donatella Versace por sua personalidade e atitude realista em relação às coisas. No masculino, gosto de Issey Miyake. Demna Gvasalia é um comentarista político, com certeza. Apesar de achar que o momento da marca já passou, ele criou um look que desafia a crítica. Se alguém dissesse: você está horrível! A resposta era: muito obrigada! (risos).

Falando de política, o que você pensa das marcas que não se comprometem com o momento de mudanças no qual estamos vivendo? 

Não é uma obrigação falar de política, mas é muito muito difícil para a moda não ser política. Algumas roupas refletem a sociedade, outras projetam. Se você está fazendo algo que envolve os desejos, as aspirações das pessoas, é muito difícil não ser político. Mesmo quando a moda é escapista, como a Gucci, rica, ornamentada, fantástica — literalmente, roupas de uma fantasia — mesmo esse escapismo é político. Você está dando para as pessoas uma saída do mundo atual, que é uma porcaria. Já não aguentamos mais ler outra chamada sobre Trump, por exemplo. Queremos ser lembrados que existe beleza, diversidade, excentricidade. A coisa mais política da moda de agora é a sua diversidade.

A moda está mais diversa hoje?

De jeito nenhum. Quando os estilistas decidiram que as supermodelos eram muito poderosas, eles decidiram acabar com esse fenômeno e isso foi uma mudança de paradigma. As agências começaram a fazer casting de mulheres magras e loiras porque as marcas queriam que as roupas fossem mais importantes do que as garotas — e elas tinham que ser magras. As pessoas acham que a moda sempre foi assim, mas não foi! Nos anos 1980, as modelos também dançavam e riam nas passarelas. De repente, as modelos pareciam ter 15 anos. Até mesmo no setor masculino, antes eram homens, hoje são meninos.

Você acha que todo mundo consegue fazer o que a Stella McCartney faz em relação à sua postura de sustentabilidade? Ou como a Gucci, que acabou de decidir não usar mais pele em suas roupas?

Acredito que todo mundo terminará tendo que fazer isso. Mas não existe imperativo moral porque as pessoas ainda vão usar essas peles. A Gucci fez algo incrível, mas a Miu Miu e a Prada ainda farão essas roupas. A moda te dá opção de ter um negócio sustentável. Também depende do cliente, se as pessoas parassem de gastar dinheiro com marcas que fazem coisas da forma antiga, isso traria uma mudança. Todo mundo fala sobre como o mundo está “acordado”. As pessoas jovens estão, mas muitos outros não. Eu sempre pensei que pele é meio horrível, não? Me parece antigo. Se você vive em um país muito muito frio, quem sabe.

Sabe o que Hubert de Givenchy me contou uma vez? Duvalier, o ditador do Haiti, sua esposa e suas amigas compravam casacos de pele caros da Givenchy em Paris. O país é muito quente, então elas construíram um quarto com refrigeradores potentes para que pudessem usar os casacos que compraram. Eu perguntei para ele: ‘o que você pensa de vender casacos de pele para a primeira-dama de um dos países mais pobres do mundo, sem que ela nem possa usar direito?’. Ele respondeu: ‘não posso falar nada sobre isso, ou sobre meus clientes’. Mas voltando à sustentabilidade, também não é só isso: o algodão é muito poluente. Nesse termo, a sustentabilidade está melhorando e espero que as coisas mudem. Sempre tenho esperanças. E sempre vejo as coisas voltarem a ser o que eram antes (risos).

O que você achou da estreia de Clare Waight Keller na Givenchy e de Natacha Ramsay-Levi na Chloé?

Clare é uma pessoa incrível, acompanhei sua carreira. Adorei o que ela fez na Pringle of Scotland — pode ser que eu seja a única pessoa no mundo, mas ela tem reverência pelo artesanal, e o que ela fez lá era muito interessante. Eu não tenho certeza se a primeira coleção [para a Givenchy] funcionou, o desfile era muito grande, e todo mundo já estava antecipando sua estreia, todos já estavam prontos para serem críticos, e ela deu coisas para eles criticarem. Estou curioso para seus próximos passos porque ela é, na verdade, a única designer a criar para a Givenchy que realmente conheceu o Hubert de Givenchy. Galliano, McQueen, Julien Macdonald e Tisci nunca conheceram ele. Imagino que ela tenha uma ideia muito clara de quem ele é. Estou reservando os julgamentos.

O que a Natacha fez na Chloé foi incrível. Um dos meus desfiles preferidos! Tinha uma atmosfera muito estranha, quase assustadora, que eu achei tão diferente. Me deu a impressão de ser a Chloé que eu via pelas primeiras vezes nas revistas, quando Karl Lagerfeld estava lá e Guy Bourdin fazia as fotos — era tudo tão estranho, meio sexual. Não que as roupas sejam exatamente assim, mas foi assustador. Amo quando conheço um estilista e posso vê-los em uma roupa. Eu amava Alexander McQueen, mas em suas coleções masculinas, você nunca podia enxergá-lo nas coleções, era sempre meio acadêmico. Quando Natacha falou sobre suas roupas depois depois dos desfiles, adorei que ela disse: ‘ela tem buracos’, se referindo ao tipo de mulher para quem ela fazia suas criações. Ela podia ter ficado na hiperfeminilidade, na delicadez, mas apostou em detalhes levemente assustadores. Muito interessante!

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