Trans é sobre liberdade

Apesar de uma geração de tops trans, a vida das pessoas que desafiam as normas da identidade de gênero ainda é difícil e perigosa.

Modelos como Lea T e Andreja Pejic foram os rostos da Redken e Make Up for Ever. Valentinas e Marias Cláudias atravessam passarelas nacionais e internacionais, aparecem em editoriais e capas de revista como a ELLE. Nos anos 1990, Roberta Gambine (conhecida como Roberta Close) desfilou para inúmeras marcas, incluindo Thierry Mugler e Jean Paul Gaultier. Esse tipo de aceitação cultural facilita esquecer o quão perigoso para mulheres que rompem as normas da identidade de gênero – há 40 anos ou ainda hoje – é o simples ato de caminhar por uma rua.

O medo de assédio, de viver a vida de uma pessoa abertamente transgênero, e muito mais a de uma mulher negra trans, simplesmente não terminou. A única opção ainda gira em torno de passar pela sociedade como invisível, esconder sua verdade.

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A top Tracey “Africa” Norman sempre soube que a questão não era se ela seria “descoberta”, mas quanto tempo conseguiria trabalhar sem ser detectada. Os anos 1970 se abriram para Iman, Beverly Johnson, Pat Cleveland e outras modelos negras cisgênero, um romper de barreiras tanto em passarelas quanto em capas, editoriais e campanhas. Ser fotografada e escolhida por Irving Penn era o tipo de história de sucesso inédita, especialmente para alguém como Tracey. Depois vieram um contrato exclusivo com a Avon, nos produtos de cuidado com a pele, e outro para as caixas de tintura de cabelos Born Beautiful, da Clairol.

Valentina Sampaio (ELLE) Valentina posa para as lentes de Gui Paganini, na nossa edição de novembro do ano passado.

Valentina posa para as lentes de Gui Paganini, na nossa edição de novembro do ano passado. (Gui Paganini/ELLE)

Ela estava em Paris, era então modelo exclusiva no showroom da Balenciaga, apresentando alta-costura duas vezes por dia. Ainda assim, tinha dificuldade em falar, desenvolvida por quem durante muito tempo praticou a arte de ser linda e invisível, de deixar as pessoas olharem para ela, mas não a verem.

Ela afirmou diversas vezes que nessa época, durante os anos 1980, começou a se livrar de suas inseguranças e de suas inibições, espantada com o que via no espelho: “A pessoa que eu estava olhando era tão bonita, composta, com os cabelos feitos, em um belo vestido. Eu me senti tão fabulosa. A minha confiança cresceu a partir daquele momento”.

A passabilidade, ou seja, quando a pessoa trans é lida socialmente como cis, tem sido um ponto questionador para a população transgênero. Isso ocorre enquanto se celebram modelos que alcançam grandes semelhança com pessoas cisgênero (aquelas que são reconhecidas dentro da atual lógica binária, que determina os conceitos de homem ou mulher, e ao longo da vida permanecem no mesmo gênero).

A realidade é que a moda tem dado sua contribuição ao assimilar – o que é bem diferente da completa aceitação – a partir do que as pessoas trans estão discutindo sobre regras e determinações que atingem suas vidas e seus corpos. Aos poucos, surgem pessoas que questionam essa imposição social da adequação.

Um dos questionamentos é se pessoas trans só cabem em passarelas ou se estão também no balcão de atendimento das marcas, se somente estilistas descolados e conscientes as chamam para trabalhar, se as grandes marcas ditas clássicas articulam possibilidade de rostos não tão “passáveis” em suas contratações. Quantos estilistas assumidamente trans estão à frente de marcas ou mesmo assinando coleções como assistentes?

No mundo da beleza, poucas pessoas têm o poder de Sue Y. Nabi, considerada a primeira megaexecutiva trans dessa indústria. Depois de 20 anos de carreira na L’Oréal, da qual saiu em 2013 como presidente da Lancôme e inventora do segundo perfume mais vendido do mundo, o La Vie Est Belle, ela recusou todas as propostas de emprego da concorrência para, secretamente, se dedicar a uma nova aventura.

Criou sua própria marca de beleza, a Orveda, em que comprovou que não existem diferenças tão gritantes entre os produtos de beleza para homens e para mulheres, a não ser a concentração – detalhe que ela resolveu no laboratório.

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 (Mariana Maltoni/ELLE)

Outra empresa importante nesse contexto é a marca nova-iorquina The Blonds, do casal de designers Phillipe e David Blond, que tem como clientes Rihanna, Madonna, Britney Spears, Lady Gaga e Beyoncé. Phillipe foi um modelo para a criação de manequins da Rootstein, moldados em seu corpo, mas que valem tanto para o feminino quanto para o masculino. Desde da criação da The Blonds, em 2004, ele desfila como mulher em todas as suas coleções e em suas próprias criações.

Talvez este seja realmente o processo mais libertador que as pessoas transexuais e travestis têm trazido à luz do sol hoje em dia: a reivindicação de uma expressão de gênero que não coincide com as expectativas do gênero recebidas por elas ao nascer. Porque a palavra trans é usada para designar precisamente isso, ou seja, para falar das pessoas que não se enquadram nos padrões cisgênero.

Identidade de gênero não é sobre impor uma condição: é o oposto. São vivências reais que conduzem ao entendimento do termo “trans” como uma forma de luta e visibilidade, principalmente sobre a liberdade de ser quem se é. O assunto não é novo. Novo é o modo como as pessoas trans resolveram falar por si e de si mesmas.


Neon é publicitária, mulher negra, ameríndia e transgênero.

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