Transgressão foi a palavra que definiu este SPFW

Vivian Whiteman faz um balanço do SPFWTRANSn42.

O SPFWN42TRANS, que trouxe já no nome a ideia da transformação, foi uma edição de discussões, polêmicas e momentos altamente emotivos. Sinal de que o tema não foi apenas decorativo. Transformações não ocorrem sem barulho, sem resistência, sem negação. A aceitação é um processo.

A chegada de dois irmãos vindos da periferia da Zona Norte de São Paulo fez muito barulho e virou o evento do avesso. O line-up do SPFW agora tem uma marca chamada LAB, comandada pelo rapper Emicida e seu irmão e parceiro Fióti. Dois artistas, dois representantes do hip-hop, duas visões forjadas no dia a dia da rua, do streetwear no que ele tem de mais legítimo, de mais vivo e, por consequência, de mais instigante.

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Teve também o baile de mulheres trans criado por Ronaldo Fraga, muito romântico, um pouco melancólico, bastante forte como imagem e inspirador de muitas reflexões. Valentina Sampaio, uma das modelos do desfile, foi o rosto da temporada e estampa a capa da ELLE de novembro. Um indício de que a performance não foi um jogo de cena estéril, mas retrato parcial de algo em plena construção.

A imprensa, especializada em moda ou não, deu à estreia da LAB todo o destaque que ela de fato mereceu. Não apenas foi histórica dentro do evento, como também no contexto da trajetória da moda brasileira. E, além disso, foi histórica por um motivo absolutamente inédito. A chave não é o casting diverso, nem a ótima roupa com preço acessível co-assinada por João Pimenta. A questão é outra. Nunca na história do evento o sujeito de um desfile foi um coletivo com raízes na periferia e com intenção não só de manter mas de fortalecer seus laços com seus moradores, sua estética e sua realidade.

Depois da chuva de elogios, surgiram alguns questionamentos sobre a marca. À parte os recalcados e os ultrapassados, algumas perguntas legítimas foram feitas. E os influencers do momento, como ficam nessa? O que falaram do desfile? Será que têm algo a dizer sobre ele? E se começarem a usar “I Love Quebrada”, como vai ser, não vai enfraquecer e gourmetizar o discurso?

A resposta, porém, é que essas perguntas levam a becos sem saída. Simplesmente por que tratam de falsas escolhas, usar ou não usar, falar ou não falar. O ponto que elas não enxergam é: pela primeira vez, influencers, blogueiras “de luxo”, colunáveis e afins não são o assunto. Eles não estão no foco. Pode ser que usem, que não usem, que gostem, que não gostem, não importa. Estamos tão acostumados a ver o mundo girar sempre em torno dos mesmos umbigos, que quando alguém chega para realinhar a órbita dos planetas, continuamos viciados em escolhas determinadas por antigas rotas.

A roupa da LAB não é só para a periferia, mas a periferia é parte indissociável do cérebro e do coração da marca. Costumamos falar da “mulher Reinaldo”, da “mulher Givenchy”, da “mulher Versace”, perfis femininos que estariam de certa forma encarnados em cada coleção. A LAB chega com uma ideia diferente de público-alvo, não indefinida, apenas mais diversa e essencialmente ligada a elementos como a música e a cultura street, da rua. E não só no sentido estético, mas em termos de encarnar certos desejos, certas histórias bem contadas com muito conhecimento de causa. Não é pobreza estilizada, muito pelo contrário. É uma questão de vivência e ponto de vista. A LAB adicionou ao SPFW um ponto de vista inédito na história do evento e na alta roda da moda brasileira. A agulha e a linha estão nas mãos deles, a imaginação e a realidade são deles e não de alguém que resolveu falar sobre eles. Isso é transformação. E das grandes.

Ronaldo também causou questionamentos. Será que chamar as trans para um espetáculo não seria oportunismo? Sinceramente, não é o caso. Ronaldo há tempos tem feito da reflexão um ponto de partida para suas apresentações. Tem dito repetidas vezes de que as roupas são secundárias no momento do show e que, especificamente nesta temporada, o foco eram as pessoas.

Ronaldo FragaSPFW - N42Outubro / 2016foto: Ze Takahashi / FOTOSITE

O baile que armou pode inclusive ser visto como uma espécie de despedida de tempos que muito lentamente vão ficando pra trás. Tinha uma vibe cabaré, espaço que, em suas muitas versões, sempre acabou sendo refúgio, quase nunca por escolha, de pessoas que ousaram viver sua verdade passando por cima dos padrões sexuais e de identidade. Padrões que são, antes de tudo, também padrões de poder.

A geração de Valentina está extrapolando esses limites. E esse avanço se deve, é claro, às lutas das gerações anteriores. Graças às trans que hoje são professoras, advogadas, empresárias, mães, graças à luta de todo dia que continua. Ela não é militante, mas tem uma certeza desconcertante para uma moça tão jovem: está muito segura de quem é e nasceu em uma família que sempre a apoiou e, na medida do possível, a protegeu. Nunca precisou se esconder. Apesar do preconceito, apesar da extrema violência, apesar da corrente onda reacionária, hipócrita e moralista, histórias positivas como a dela se multiplicam. São duas (na verdade, muitas) realidades que caminham juntas, criando uma perspectiva de avanço. Isso também é transformação.

Transformar não é fácil, é um trabalho para a vida. Transformar é uma questão de abrir mão, de perder zonas de segurança que viraram prisão. E às vezes dói. Mas, como diz o ditado, em certos casos, aceita que dói menos.

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