Visões de futuro no inverno 2018 da Semana de Moda de Milão

Como marcas tradicionais estão garantindo o seu espaço em um mundo que se divide entre o ápice da tecnologia e uma guinada ao artesanal.

Quem está começando sonha em ter a estrutura de uma grande marca italiana: acesso a matérias-primas de alta qualidade, mão-de-obra especializada e a garantia de uma visibilidade internacional. Por outro lado, nem tudo é um mar de rosas para as labels milanesas. Carregar consigo a história de uma etiqueta que surgiu e se popularizou em um momento muito específico da moda dificulta o exercício de especificar o espaço da grife no presente. O futuro, então, parece cada vez mais incerto. Mesmo assim, ninguém parece estar pensando em desistência.

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Semana de Moda de Milão Versace

Versace (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Uma série de marcas, nesta temporada de inverno 2018 da Semana de Moda de Milão, está começando a consolidar o seu novo DNA de estilo. Um dos casos é o da Roberto Cavalli. Em sua segunda coleção para a etiqueta, Paul Surridge propõe uma ideia contraditória: um glamour moderno. Por mais que essa seja a busca de diversos estilistas, poucos são os que conseguem enxergar a ambiguidade da ideia e, a partir disso, brincar com ela. Enquanto Surridge pinta torsos masculinos de ombré, aposta em recortes inusitados e tenta limpar os excessos da etiqueta conhecida exatamente por sua opulência, Donatella Versace não cede às pressões da modernidade e mergulha em seu próprio arquivo.

Semana de Moda de Milão Roberto Cavalli

Roberto Cavalli (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Depois da coleção de tributo a seu irmão Gianni — o fundador da casa e grande gênio por trás das criações mais icônicas da grife –, ela continua escavando o passado da Versace. Agora, com a ajuda de um casting matador (Raquel Zimmerman e Natalia Vodianova inclusas), a italiana vai de power suit e se atualiza ao brincar de uniforme colegial — o que deve ajudar nas vendas, considerando a obsessão do mundo da moda por xadrez neste momento. Quem curte o filme As Patricinhas de Beverly Hills tem neste desfile a sua melhor (e mais luxuosa) expressão.

A Pucci, outra marca que integra o hall das mais importantes da Semana de Moda de Milão, está em um momento peculiar. Laudomia Pucci, filha de Emilio, tem uma missão parecida com a de Donatella: recuperar o clássico e reforçar a sua relevância. No inverno 2018, a estratégia adotada pela sua equipe de estilo foi a de relembrar a relação da etiqueta com os Estados Unidos. Assim, entram em cena os slip dresses (sugestão da historica editora Diana Vreeland para o próprio Emilio) em versão alongada e uma série de misturas de estampas com desenhos lisérgicos contrastando com as cores mais sóbrias da estação.

Semana de Moda de Milão Emilio Pucci

Emilio Pucci (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Mais consciente do que pode desenvolver dentro da marca em que está, e também atento ao que acontece no mundo, Francesco Risso fez a sua melhor coleção para a Marni desde sua contratação. Seu vislumbre de futuro trabalha com as estruturas complexas dos tradicionais vestidos da marca feitos com um belo clash de tecidos vinílicos de alma futurista com materiais mais rústicos, com apelo artesanal. Destaque para a estamparia divertida feita para agradar as fãs mais antigas da label.

Semana de Moda de Milão Marni

Marni (FOTOSITE/Agência Fotosite)

Com a mesma sobriedade, Paul Andrew estreou na Ferragamo. Ao lado do designer responsável pelo masculino da etiqueta, ele decidiu dar um reset no prêt-à-porter da grife que, segundo ele, “estava uma confusão”. Quem assistiu ao desfile pode concluir algumas coisas a respeito do futuro que a grife pretende construir: foco no couro (uma das maiores forças da casa) e na alfaiataria. Dando privilégio absoluto aos materiais luxuosos com os quais trabalham, os shapes são versões um pouco mais amplas de peças bastante tradicionais. Agora, com mais clareza, a Ferragamo promete crescer e se provar ainda mais.

Semana de Moda de Milão Salvatore Ferragamo

Salvatore Ferragamo (FOTOSITE/Agência Fotosite)

A Tommy Hilfiger, no entanto, fecha um ciclo que abraçou com veemência uma possibilidade de futuro da moda: a relação forte com as influencers, o “see now, buy now”, os desfiles itinerantes e a espetacularização da moda comercial. Nesta temporada, sua parceria com a top Gigi Hadid entrega a sua última parcela. Dessa vez, inspirada no universo automobilístico com peças altamente desejáveis e cenário apoteótico. Esperamos para ver os próximos capítulos dessa história.

Por fim, há quem mergulhe de cabeça no ditado que diz: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. É o caso da Dolce & Gabbana que, antes das modelos, colocou drones sobrevoando a passarela, segurando as bolsinhas da estação. A Prada, aliás, foi além e covocou uma digital influencer que, simplesmente, não existe fora do digital. Miquela é um projeto de inteligência artifical, já foi entrevistada por nós, e agora tornou-se garota propaganda da marca dirigida por Miuccia. De um jeito ou de outro, o amanhã está atormentando as mentes criativas Milão. Resta saber quais dessas propostas vão conseguir controlar a visita cruel do tempo.

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